
Enquanto escrevo pareço possuir a grandiloquência de um célebre orador... teço sonhos megalomaníacos, viajo intergalacticamente, imagino-me dona do universo ou, pelo menos, de mim mesma. Mas basta frear a caneta, ou deitar as mãos do teclado, para sentir-me menor que um átomo de carbono em todo asfalto da Rodovia Bandeirantes, mais ordinário que um fóton num feixe colossal de raio laser, ou ainda, infinitesimalmente mais insignificante que um quark. Só por esse motivo, percebo que preciso escrever. E, para isso, preciso parar. Paradoxal, precisar parar para mover, pois escrever induz a movimento ou ação. Porém é isso mesmo. Necessito parar com essa rotina maluca e delirante, que me faz agir automaticamente e sem pensar; que me faz respirar truncada e superficialmente; que me faz pensar que viver não tem motivo. Preciso encontrar uma razão para viver, e essa motivação, para mim, é escrever. Apesar dos sonhos grandiosos que vivencio durante o ato da composição, percebo ao fim de tudo que o que fiz são apenas tolices; a sensação que vivenciei durante o ato, que me fazia crer que voava por sobre planícies multicoloridas e brilhantes ou corria a milhares de quilômetros-luz com automóveis supersônicos por estradas labirínticas, apenas instantaneamente se desfaz ao término da escrita, e deparo-me com o resultado pobre e vulgar de uma mente não menos mentecapta, que é essa que agora fala. Devo desesperadamente fugir da mediocridade; libertar-me desse corpo e cérebro limitados, que me impedem de pensar. Preciso voar a altitudes inimagináveis num átimo de segundo e voltar instantaneamente para a terra num vôo mergullhante, para então adentrar as profundezas de um oceano gelado e escuro, de onde imediatamente, após rápida emersão, dirigir-me-ei a um local entre o céu e a terra, numa camada mais alta da atmosfera, onde o ar é rarefeito ou nem é ar, pois os átomos estão dispersos de tal modo que não se unem para formar moléculas, onde meu corpo teria dificuldade de respirar mas vejo que não tem, pois meus pulmões instantaneamente se adaptam à nova situação ampliando demasiadamente seus alvéolos às custas de uma expansão forçada do tórax e parcial compressão de meus brônquios e coração, este último que não sofre com tal perda de volume, pois do modo em que me encontro o débito cardíaco necessário para a manutenção da vida é bem menor, não porque a oxigenação se tornou mais eficiente devido à expansão temporária dos alvéolos e à captação aumentada de oxigênio em todas suas formas, mas também porque o metabolismo basal de meu corpo, antes massa pesada, agora formado por leves órgãos unidos por plasma transparente culminando numa substância física levíssima, encontra-se reduzido a valores ínfimos, quase que num estado de hibernação. Plaino no nível já descrito, que agora entendo como termosfera, que não é estratosfera, que é nome de música de heavy metal finlandês. Nesse instante, que é muito rápido, já acabou, percebi a importância de tudo e de todos na Terra, das influências que tive até então, das pessoas que comigo conviveram e me ensinaram, para o bem ou para o mal. Tão bom que agora posso me abrir e contar pra vocês tudo o que aprendi sobre o mundo que se encontra abaixo de meus pés, se bem que nem sei quem são vocês ou mesmo se vocês existem - estarei sozinha? Meus pés por ora flutuam, mas também poderiam estar pisando forte nessa grama rosada que se acaba de plasmar numa imagem de gramíneas rasteiras de coloração pardacenta, mas esta visão acaba de ser desfeita e o que vejo no momento é o cosmo, ou parte dele, imagino, posto que é infinito, ou será finito dentro de um limite pré-estabelecido que é até onde o homem conhece do Universo, em que cabem inúmeras galáxias; este universo então cabe dentro de outro, e de outro e de outro, e assim por diante, como aquelas bonequinhas russas de louça que têm os vestidos pintados e não riem. Então, já que vislumbro o "horizonte" do cosmo, quero chamar atenção para o fato de que não sei como cheguei até aqui, a flutuar não foi, pois lembraria de ter desgrudados os pés do chão, ou a bunda da cadeira, ou ainda os peitos da cama (durmo de bruços). Também não fui raptada ou abduzida por nenhum ser, já que não me lembro de nenhuma face estranha, ovóide, esverdeada de olhos oblíquos e sem boca que tenha me contactado. Ainda não poderia ter chegado até aqui caminhando, por motivos óbvios, que tal lugar é um pouco distante, além de alto, e não tenho super-poderes como os tem o Super-Homem ou o Homem-Aranha (e ainda este último, teria que grudar sua teia em algum anteparo antes de se alavancar em minha direção, e não vejo nada ao meu redor semelhante a tal estrutura). Bem, talvez lembrar não interesse, cheguei até aqui pensando mesmo. Pensando alto.
Agora descansarei minhas mãos; tornarei à terra e reocuparei meu lugar idiota no planeta. Até uma próxima vez em que a inspiração, ou seja lá qual o nome pra essa vontade louca de voar, me chame para nova e instigante viagem, levando-me a lugares nunca antes explorados.







