sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Viagem




Enquanto escrevo pareço possuir a grandiloquência de um célebre orador... teço sonhos megalomaníacos, viajo intergalacticamente, imagino-me dona do universo ou, pelo menos, de mim mesma. Mas basta frear a caneta, ou deitar as mãos do teclado, para sentir-me menor que um átomo de carbono em todo asfalto da Rodovia Bandeirantes, mais ordinário que um fóton num feixe colossal de raio laser, ou ainda, infinitesimalmente mais insignificante que um quark. Só por esse motivo, percebo que preciso escrever. E, para isso, preciso parar. Paradoxal, precisar parar para mover, pois escrever induz a movimento ou ação. Porém é isso mesmo. Necessito parar com essa rotina maluca e delirante, que me faz agir automaticamente e sem pensar; que me faz respirar truncada e superficialmente; que me faz pensar que viver não tem motivo. Preciso encontrar uma razão para viver, e essa motivação, para mim, é escrever. Apesar dos sonhos grandiosos que vivencio durante o ato da composição, percebo ao fim de tudo que o que fiz são apenas tolices; a sensação que vivenciei durante o ato, que me fazia crer que voava por sobre planícies multicoloridas e brilhantes ou corria a milhares de quilômetros-luz com automóveis supersônicos por estradas labirínticas, apenas instantaneamente se desfaz ao término da escrita, e deparo-me com o resultado pobre e vulgar de uma mente não menos mentecapta, que é essa que agora fala. Devo desesperadamente fugir da mediocridade; libertar-me desse corpo e cérebro limitados, que me impedem de pensar. Preciso voar a altitudes inimagináveis num átimo de segundo e voltar instantaneamente para a terra num vôo mergullhante, para então adentrar as profundezas de um oceano gelado e escuro, de onde imediatamente, após rápida emersão, dirigir-me-ei a um local entre o céu e a terra, numa camada mais alta da atmosfera, onde o ar é rarefeito ou nem é ar, pois os átomos estão dispersos de tal modo que não se unem para formar moléculas, onde meu corpo teria dificuldade de respirar mas vejo que não tem, pois meus pulmões instantaneamente se adaptam à nova situação ampliando demasiadamente seus alvéolos às custas de uma expansão forçada do tórax e parcial compressão de meus brônquios e coração, este último que não sofre com tal perda de volume, pois do modo em que me encontro o débito cardíaco necessário para a manutenção da vida é bem menor, não porque a oxigenação se tornou mais eficiente devido à expansão temporária dos alvéolos e à captação aumentada de oxigênio em todas suas formas, mas também porque o metabolismo basal de meu corpo, antes massa pesada, agora formado por leves órgãos unidos por plasma transparente culminando numa substância física levíssima, encontra-se reduzido a valores ínfimos, quase que num estado de hibernação. Plaino no nível já descrito, que agora entendo como termosfera, que não é estratosfera, que é nome de música de heavy metal finlandês. Nesse instante, que é muito rápido, já acabou, percebi a importância de tudo e de todos na Terra, das influências que tive até então, das pessoas que comigo conviveram e me ensinaram, para o bem ou para o mal. Tão bom que agora posso me abrir e contar pra vocês tudo o que aprendi sobre o mundo que se encontra abaixo de meus pés, se bem que nem sei quem são vocês ou mesmo se vocês existem - estarei sozinha? Meus pés por ora flutuam, mas também poderiam estar pisando forte nessa grama rosada que se acaba de plasmar numa imagem de gramíneas rasteiras de coloração pardacenta, mas esta visão acaba de ser desfeita e o que vejo no momento é o cosmo, ou parte dele, imagino, posto que é infinito, ou será finito dentro de um limite pré-estabelecido que é até onde o homem conhece do Universo, em que cabem inúmeras galáxias; este universo então cabe dentro de outro, e de outro e de outro, e assim por diante, como aquelas bonequinhas russas de louça que têm os vestidos pintados e não riem. Então, já que vislumbro o "horizonte" do cosmo, quero chamar atenção para o fato de que não sei como cheguei até aqui, a flutuar não foi, pois lembraria de ter desgrudados os pés do chão, ou a bunda da cadeira, ou ainda os peitos da cama (durmo de bruços). Também não fui raptada ou abduzida por nenhum ser, já que não me lembro de nenhuma face estranha, ovóide, esverdeada de olhos oblíquos e sem boca que tenha me contactado. Ainda não poderia ter chegado até aqui caminhando, por motivos óbvios, que tal lugar é um pouco distante, além de alto, e não tenho super-poderes como os tem o Super-Homem ou o Homem-Aranha (e ainda este último, teria que grudar sua teia em algum anteparo antes de se alavancar em minha direção, e não vejo nada ao meu redor semelhante a tal estrutura). Bem, talvez lembrar não interesse, cheguei até aqui pensando mesmo. Pensando alto.
Agora descansarei minhas mãos; tornarei à terra e reocuparei meu lugar idiota no planeta. Até uma próxima vez em que a inspiração, ou seja lá qual o nome pra essa vontade louca de voar, me chame para nova e instigante viagem, levando-me a lugares nunca antes explorados.

domingo, 8 de junho de 2008

Morte aos loucos
















Pessoas loucas deveriam morrer. Decapitadas, esquartejadas... vísceras expostas.
.................
Eu quero paz.

domingo, 11 de maio de 2008

Ambidestra




Ambidestramente
escrevo o futuro
de todas as mãos;
a minha que aguarde.

Adestradamente
obedeço ao comando
de vozes raivosas
aflitas, perdidas.

Afobadamente
persigo o destino
como se outro dia
não mais houvesse.

Automaticamente
inicio o projeto
concluo o estudo
encerro o trajeto.

Antagonicamente
persigo o complexo
encontrando, perdendo
esbarrando, fugindo.

Anonimamente
me basto, e bastante
é o tanto que sofro
sozinha, na mente.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

O gato

O gato chegou
tigrado de preto
olhos tão amarelos
e alma brilhante.

O gato chegou
e com ele, alegria
esperança e leveza
companhia amiga.

O gato que veio
ocupou o meu peito
com um canto sofrido
e olhar tão distante

Então percebi
que quem mais precisa
do gato sou eu,
e não ele de mim.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Criança




Há quem sempre quis ser gente grande. Eu sempre desejei ser menina.
Nascida bebê, tornada guria, quis sempre permanecer assim... pequena.
Só não sabia que isso era quase impossível nesse mundo, pelo menos é o que tentam me provar até hoje. Mas refutarei até o último instante essa imposição de "crescer"; só me tornarei adulta no dia em que morrer. Porque daí eu apodreço e me torno o que os adultos na verdade são: podres.
Desde criança eu quis ser criança. Lá quando menina eu sonhava em permanecer menina. Na pré-adolescência o sonho era o mesmo: desejava ser a eterna Peter Pan. Simples assim: miúda, discreta, ingênua.
Porém uma avalanche de pessoas e hormônios me empurrou adiante: impuseram-me obrigações, forçaram-me a fazer escolhas, muitas vezes, dolorosas. Alguns tolos fizeram o despropósito de se auto-imputarem meus dependentes, vejam só, eu teria que cuidar dos outros ao invés de ser cuidada!!! Cresci, troquei as roupas, sangrei, chorei, amei, sangrei novamente, tentei evitar mas não consegui, cuidei de muitos com carinho; enfim, cresci às vistas de todos, tornando-me uma adulta responsável e respeitável. Pelo menos era o que imaginavam. O que não sabiam é que secretamente eu mantinha o segredo da infinita infância. Desenvolvi mecanismos únicos em meu ser, que me mantêm (e manter-me-ão) jovem eternamente. Ei-los.
Meu cérebro, mesmo tendo aumentado de volume com a idade, não se desenvolveu da maneira usual dos outros adultos. Apesar de desenvolver novas conexões neurológicas com o aprendizado constante da vida, manteve alguns aspectos peculiares: minhas sinapses apostam corrida e brincam de pega-pega; os neurônios riam e brincam de amarelinha.
A alma também foi imortalizada por técnicas que desenvolvi no decorrer dos anos, nessa tentativa sôfrega de fugir contra o tempo. Tornei-a alma de eterna menina, após tratá-la com uma solução de chocolate e formaldeído (que é um ótimo fixador de aura), além de muito treino e meditação , mantendo meu espírito leve e livre da inveja, maldade e mentiras (que poderiam deturpá-la, envelhecendo-a). Isso não quer dizer que eu tenha me tornado perfeita, ou um ser 'superior', que fique bem claro, somente criei um escudo da alma contra as piores adversidades do mundo, tal qual uma vacina, impedindo-a de adoecer tão cedo (que costuma acontecer com a maioria dos adultos). Por outro lado nunca
consegui criar nada de inovador para manter o corpo físico jovem como de uma criança. Esse já se transformou há tempos, tornando-se corpo de mulher. Mas não tem problema: acredito que nos mantemos jovens quando o espírito é jovem. Fiar-me-ei nessa afirmação.
O que a maioria das pessoas não sabe é que muitos outros já tentaram esses mecanismos que por ora descrevo, com sucesso. Sabe aquele pai de família respeitável que solta uma gargalhada num momento completamente inapropriado? Ou ainda aquela mulher que dirige cantando aos berros e conversa com o cachorro como se fosse seu filho? É a alma da criança que não os abandonou. Ou ainda aquela velhinha (por sorte não se tornara diabética) que se regozija e lambuza-se ao provar pela enésima vez o mais vulgar dos doces, um beijinho, somente porque remete à sua tenra idade. Ou o avô que trata dos brinquedos do neto como se fossem seus; manipula marionetes ou faz dobraduras de papel com a desenvoltura de um artífice. Trata-se da criança, na maior parte do tempo escondida, que vem à tona, exibindo sua felicidade ao mundo.
Não me sentirei acuada. Minha opção está feita e não há como voltar. Apesar de o fato de 'escolher' ser coisa de adulto, serei criança a vida inteira, custe o que custar. E agora faço uma promessa (perante a mim mesma) de que nao me desfarei dos brinquedos, livros e DVDs infantis que possuo; não me sentirei ridícula ao vestir minhas camisetas da Hello Kitty nem ao usar tique-taques no cabelo (ainda sabendo que tenho quase trinta anos); que não deixarei de rir das piadas tontas, observações tolas e palhaçadas ingênuas, mesmo que em público; que não obrigarei nenhum futuro filho meu a parecer grave e sério como gente grande (nem que o vestirei com gravatas e suspensórios - tipo "roupa do papai" - urghhh!!!)
E, para finalizar, farei uma ode a tudo de bom e infantil que há na minha vida:
Viva os cachorros e bichinhos lindos peludos-ou-não da natureza!!! Viva a terra com minhocas e caracóis que a gente mexe e fica com as unhas sujas!!! Viva as músicas feitas pra cantar em voz alta e/ou dançar freneticamente!!! Viva o amarelo, azul, vermelho e rosa-choque!!! Viva o brigadeiro de panela e o creme de avelãs, e viva também a rabanada com bastante canela e bala de côco meio-mole!!! Viva o Snoopy e o Charles Schulz, seu criador; também viva pra todos os Peanuts!!!
Viva as pipas, os skates, bolinhas de gude e bicicletas com cestinhos na dianteira!!!
E finalmente, (mas só pro texto terminar logo - não porque a lista de vivas tenha realmente terminado!) viva pros adultos que resolveram ser eternas crianças!!!

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Eu me esqueci de escrever mas nao de viver...

quarta-feira, 19 de março de 2008

Kafka



"Todos os erros humanos são impaciência, uma interrupção prematura de um trabalho metódico."

"Talvez haja apenas um pecado capital: a impaciência. Devido à impaciência, fomos expulsos do Paraíso; devido à impaciência, não podemos voltar."

Franz Kafka

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Solidão



SOLIDÃO

De tanto desejar ser só
Deus me fez abandonada.
O corpo ao lado, cujo espírito
não me sabe, também eu desconheço.
Derredor feito de vultos e
sombras que não me são caros.
Às vezes a ânsia por companhia
torna a busca muito perigosa.

Amparada pela angústia
sigo em torrente desordenada.
Dores e medos desesperados
sulcam veios no trajeto errante
de uma alma despedaçada.
Solidão que me fora dada
Antes sabida que fadada
Agora que não mais a quero
É-me de todo acorrentada.

Encontrar-me onde? Tudo e todos
não me permitem ou não me querem.
Mente insana e incompreensível
não pode pedir companhia amiga.
Sigo a esmo e sozinha
o caminho de todos os tolos;
e, ao invés de chorar a ferida,
aceito a idéia singular
de ser somente apenas, mas bastante.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008





A faca na mão e o pulso trêmulo... quer se matar mas não consegue. Vontades mil passam na esteira da mente, mas o motivo maior ainda não surgiu. Impossível se matar por qualquer coisa. Imagina o ridículo: "Matou-se, mas familia desconhece as razões"; ou ainda : "Provável distúrbio psiquiátrico não definido leva jovem de classe média a praticar suicídio". Isso não, definitivamente! Sua morte deve evocar não somente compaixão, mas comoção e crítica. Deve ser motivo para debates filosóficos e mesas-redondas multidisciplinares. Morte com fundamento. Que pelo menos na partida traga alguma utilidade pública, já que em vida não conseguiu. Deve pensar mais antes de se matar. Encontrar uma razão concreta, que não se dilua com o passar do tempo, perdendo o sentido. Há que ter paciência.

domingo, 20 de janeiro de 2008

Caçador de Pipas


Quando li o livro "O Caçador de Pipas",de Khaled Hosseini, há pouco menos de um ano, emocionei-me. Logo após soube que já estavam filmando a adaptação; esperei ansiosamente pelo seu lançamento . Mas decepcionei-me ao assistir ao filme. O roteiro pecou num erro primordial, que foi o de ocultar a narrativa,em primeira pessoa, do protagonista Amir. Era exatamente essa narrativa que dava o tom certo à história; Amir conta, após descrever cada fato de sua história, como se sentia, sua percepção sobre os que o cercavam, sua culpa e ressentimento pelo que fizera e deixara de fazer no passado. Relata sua relação com o pai que tanto amava, mas que percebia não amá-lo da mesma maneira; conta como destratava seu melhor amigo, Hassan, enganando-o e aproveitando-se de sua lealdade. O livro mostra que, mesmo com o passar dos anos, o sentimento de culpa e vergonha de Amir não tinham se esvaído; pelo contrário, tais sentimentos permeavam todas suas escolhas e julgamentos. Quando Amir perdoou Soraya, também o fez porque sabia que havia errado no passado, e, por esse motivo, não tinha o direito de julgar ninguém; isso foi omitido no filme (e nem ao menos pôde ser depreendido). Toda dor e sofrimento da cena em que Amir vê Hassan ser violentado, também se perdeu numa sequência rápida e superficial; faltou a profundidade da auto-crítica do protagonista, que daria muito mais emoção à passagem. Amir se auto-flagela em pensamento, por inúmeras vezes, devido à sua covardia e deslealdade em relação ao amigo.
Toda a nuance do livro foi perdida na adaptação; mesmo assim o filme continua belo. A fotografia é muito boa, a cena da competição de pipas é realmente linda.
Pergunto-me como seria ter assistido ao filme sem antes ter lido a obra.

domingo, 13 de janeiro de 2008

Ano Novo

Dezembro passou em branco. Janeiro iniciou repleto.
Nem todas as notícias foram as que gostaria de receber.
Afinal de contas, a vida é cruel pra quem a vive.
Serei revolta até o fim, mesmo sabendo que deveria ser submissa.
Contra a doença há o remédio; contra a insanidade há os choques.
Mas quero ser doente e insana; e contra minha vontade há a lucidez
De todos que não me aceitam (e acho que esses todos moram juntos em minha consciência).
Nesse ano quero ser eu mesma, e gostar disso.
Na verdade, em 2008, gostaria de fazer um milagre. Pra ajudar alguém que eu amo.
Quisera ser uma santa. Mas não sou.
Então choro calada, sofrendo amiúde.
......
Deus, tenha piedade de nós.