
Quando li o livro "O Caçador de Pipas",de Khaled Hosseini, há pouco menos de um ano, emocionei-me. Logo após soube que já estavam filmando a adaptação; esperei ansiosamente pelo seu lançamento . Mas decepcionei-me ao assistir ao filme. O roteiro pecou num erro primordial, que foi o de ocultar a narrativa,em primeira pessoa, do protagonista Amir. Era exatamente essa narrativa que dava o tom certo à história; Amir conta, após descrever cada fato de sua história, como se sentia, sua percepção sobre os que o cercavam, sua culpa e ressentimento pelo que fizera e deixara de fazer no passado. Relata sua relação com o pai que tanto amava, mas que percebia não amá-lo da mesma maneira; conta como destratava seu melhor amigo, Hassan, enganando-o e aproveitando-se de sua lealdade. O livro mostra que, mesmo com o passar dos anos, o sentimento de culpa e vergonha de Amir não tinham se esvaído; pelo contrário, tais sentimentos permeavam todas suas escolhas e julgamentos. Quando Amir perdoou Soraya, também o fez porque sabia que havia errado no passado, e, por esse motivo, não tinha o direito de julgar ninguém; isso foi omitido no filme (e nem ao menos pôde ser depreendido). Toda dor e sofrimento da cena em que Amir vê Hassan ser violentado, também se perdeu numa sequência rápida e superficial; faltou a profundidade da auto-crítica do protagonista, que daria muito mais emoção à passagem. Amir se auto-flagela em pensamento, por inúmeras vezes, devido à sua covardia e deslealdade em relação ao amigo.
Toda a nuance do livro foi perdida na adaptação; mesmo assim o filme continua belo. A fotografia é muito boa, a cena da competição de pipas é realmente linda.
Pergunto-me como seria ter assistido ao filme sem antes ter lido a obra.

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