quarta-feira, 23 de abril de 2008

Criança




Há quem sempre quis ser gente grande. Eu sempre desejei ser menina.
Nascida bebê, tornada guria, quis sempre permanecer assim... pequena.
Só não sabia que isso era quase impossível nesse mundo, pelo menos é o que tentam me provar até hoje. Mas refutarei até o último instante essa imposição de "crescer"; só me tornarei adulta no dia em que morrer. Porque daí eu apodreço e me torno o que os adultos na verdade são: podres.
Desde criança eu quis ser criança. Lá quando menina eu sonhava em permanecer menina. Na pré-adolescência o sonho era o mesmo: desejava ser a eterna Peter Pan. Simples assim: miúda, discreta, ingênua.
Porém uma avalanche de pessoas e hormônios me empurrou adiante: impuseram-me obrigações, forçaram-me a fazer escolhas, muitas vezes, dolorosas. Alguns tolos fizeram o despropósito de se auto-imputarem meus dependentes, vejam só, eu teria que cuidar dos outros ao invés de ser cuidada!!! Cresci, troquei as roupas, sangrei, chorei, amei, sangrei novamente, tentei evitar mas não consegui, cuidei de muitos com carinho; enfim, cresci às vistas de todos, tornando-me uma adulta responsável e respeitável. Pelo menos era o que imaginavam. O que não sabiam é que secretamente eu mantinha o segredo da infinita infância. Desenvolvi mecanismos únicos em meu ser, que me mantêm (e manter-me-ão) jovem eternamente. Ei-los.
Meu cérebro, mesmo tendo aumentado de volume com a idade, não se desenvolveu da maneira usual dos outros adultos. Apesar de desenvolver novas conexões neurológicas com o aprendizado constante da vida, manteve alguns aspectos peculiares: minhas sinapses apostam corrida e brincam de pega-pega; os neurônios riam e brincam de amarelinha.
A alma também foi imortalizada por técnicas que desenvolvi no decorrer dos anos, nessa tentativa sôfrega de fugir contra o tempo. Tornei-a alma de eterna menina, após tratá-la com uma solução de chocolate e formaldeído (que é um ótimo fixador de aura), além de muito treino e meditação , mantendo meu espírito leve e livre da inveja, maldade e mentiras (que poderiam deturpá-la, envelhecendo-a). Isso não quer dizer que eu tenha me tornado perfeita, ou um ser 'superior', que fique bem claro, somente criei um escudo da alma contra as piores adversidades do mundo, tal qual uma vacina, impedindo-a de adoecer tão cedo (que costuma acontecer com a maioria dos adultos). Por outro lado nunca
consegui criar nada de inovador para manter o corpo físico jovem como de uma criança. Esse já se transformou há tempos, tornando-se corpo de mulher. Mas não tem problema: acredito que nos mantemos jovens quando o espírito é jovem. Fiar-me-ei nessa afirmação.
O que a maioria das pessoas não sabe é que muitos outros já tentaram esses mecanismos que por ora descrevo, com sucesso. Sabe aquele pai de família respeitável que solta uma gargalhada num momento completamente inapropriado? Ou ainda aquela mulher que dirige cantando aos berros e conversa com o cachorro como se fosse seu filho? É a alma da criança que não os abandonou. Ou ainda aquela velhinha (por sorte não se tornara diabética) que se regozija e lambuza-se ao provar pela enésima vez o mais vulgar dos doces, um beijinho, somente porque remete à sua tenra idade. Ou o avô que trata dos brinquedos do neto como se fossem seus; manipula marionetes ou faz dobraduras de papel com a desenvoltura de um artífice. Trata-se da criança, na maior parte do tempo escondida, que vem à tona, exibindo sua felicidade ao mundo.
Não me sentirei acuada. Minha opção está feita e não há como voltar. Apesar de o fato de 'escolher' ser coisa de adulto, serei criança a vida inteira, custe o que custar. E agora faço uma promessa (perante a mim mesma) de que nao me desfarei dos brinquedos, livros e DVDs infantis que possuo; não me sentirei ridícula ao vestir minhas camisetas da Hello Kitty nem ao usar tique-taques no cabelo (ainda sabendo que tenho quase trinta anos); que não deixarei de rir das piadas tontas, observações tolas e palhaçadas ingênuas, mesmo que em público; que não obrigarei nenhum futuro filho meu a parecer grave e sério como gente grande (nem que o vestirei com gravatas e suspensórios - tipo "roupa do papai" - urghhh!!!)
E, para finalizar, farei uma ode a tudo de bom e infantil que há na minha vida:
Viva os cachorros e bichinhos lindos peludos-ou-não da natureza!!! Viva a terra com minhocas e caracóis que a gente mexe e fica com as unhas sujas!!! Viva as músicas feitas pra cantar em voz alta e/ou dançar freneticamente!!! Viva o amarelo, azul, vermelho e rosa-choque!!! Viva o brigadeiro de panela e o creme de avelãs, e viva também a rabanada com bastante canela e bala de côco meio-mole!!! Viva o Snoopy e o Charles Schulz, seu criador; também viva pra todos os Peanuts!!!
Viva as pipas, os skates, bolinhas de gude e bicicletas com cestinhos na dianteira!!!
E finalmente, (mas só pro texto terminar logo - não porque a lista de vivas tenha realmente terminado!) viva pros adultos que resolveram ser eternas crianças!!!

Nenhum comentário: