segunda-feira, 13 de abril de 2009

A vida é um rol de descontentamentos

Contento-me descontente
após breve e desconcertante tormento .
Constantemente me alegro
Constatando a alegria em contidos contêineres vazios.
Contenho dúvidas, contudo sinto somente.
Compreendo entretanto que tudo é raso e rente, pouco e reticente.
Por via das dúvidas, tranco a chave minha mente.
Em vão. Insuficiente.
Influenciando a música, canto um solo assim silente.
Conto, sã e serenamente, o que de fato é meu presente.
Sinto muito se, no entanto, nunca fora: o agora é sempre.
Entre tantos, entrementes... fico aqui eternamente.
E sinto a fuga, essa eterna insolente,
ora sumindo, protelando, ora partindo os pensamentos.
Basta! Pois que a vida é luta, dívida imensa e permanente,
e sempremente, será um rol de descontentamentos.

quinta-feira, 26 de março de 2009

segunda-feira, 16 de março de 2009

A VOZ DO BAIRRO

São Paulo, 5 de março de 2009.


Belo Antonio mata noiva e foge


Por Adolfo Vasconcelos


Antonio Santos da Silva, 29 anos, é acusado de esfaquear a noiva, Bárbara Pereira, de 23 anos, às 22 horas do último sábado, no bairro Jardim Ângela, Zona Sul de São Paulo. Encontra-se foragido desde então. O rapaz residia no bairro e trabalhava como auxiliar de escritório num edifício comercial na Bela Vista. Considerado “ótima pessoa” pelos seus familiares e vizinhos, todos se encontram chocados com o ocorrido. Bárbara era discreta e não possuía muitas amizades na comunidade, segundo moradores locais; órfã desde os 15 anos, vivia com mais dois irmãos em um barraco na favela Caiçara e trabalhava como empregada doméstica. O corpo da jovem assassinada foi encontrado num terreno baldio próximo à casa de Antonio, onde ele morava com sua mãe e irmã mais nova. O cadáver apresentava sinais de extrema violência, como marcas de cigarro e unhas avulsionadas dos dedos das mãos e dos pés. A polícia trabalha com a hipótese de tortura. Um morador local , quando questionado pela reportagem, disse que Antonio era uma pessoa extremamente calma e dócil, além de muito bonito, o que lhe conferiu o apelido de "Belo Antonio": “Um cara do bem, não entendo como foi fazer uma desgraceira dessas....”. A mãe de Antonio, em estado de choque, não quis falar com os repórteres. Foram ouvidos outros moradores, que disseram ser “colegas” de Antonio, mas não quiseram se identificar. Um deles disse que Antonio era homossexual e fora visto beijando outros rapazes. A melhor amiga da vítima disse que o casal brigava muito, e Bárbara havia lhe contado que Antonio sofria de impotência sexual. Digressões à parte, o certo é que o caso está sendo tratado como prioridade pela polícia: “Um homem como esse não pode ficar solto pelas ruas, é provável que faça uma próxima vítima. A polícia está se empenhando muito nas investigações, que já estão bem adiantadas.” - garante o delegado Silveira da Rocha, do 47o DP, de Capão Redondo.


A Sociedade tem a VOZ

O mundo encontra-se inserido numa terrível e constante onda de violência. São poucas as famílias que nunca sofreram, direta ou indiretamente, algum caso de violência por parte dos próprios familiares ou de crimonosos. Falta educação, falta moradia, mas, principalmente, falta segurança. O caso Bárbara-Antonio ilustra bem esse descaso das autoridades públicas com a sociedade. A moça foi vista saindo da escola às 21h da noite e segundo próprio laudo da perícia legal, foi, sob a ameaça de uma arma, obrigada a caminhar por 400 ou 500 m até o terreno baldio onde teria sua vida roubada. Como poderia ninguém ter visto um rapaz com uma arma apontada para uma moça, durante um trajeto de 500 metros? Não havia realmente ninguém na rua? E se não havia, a polícia não deveria estar lá? É por essas e mais outras que eu sempre digo: falta policiamento ostensivo nas ruas de São Paulo, principalmente nas periferias, onde os casos de violência são mais frequentes. Mais uma vez vemos uma vida desperdiçada; as famílias foram eternamente desgraçadas, ninguém mais devolverá a alegria para essas pessoas que tanto a amavam. Vamos dar um basta nisso! Vamos exigir mais da polícia!
Adalberto Ramos é comerciante e filiado do ACJA (Ação Comunitária Jardim Ângela); foi candidato a vereador nas últimas eleições pelo PPPP. Contato: bertao@acja.com.br


VOZ da Psicóloga

Mais uma vez vemos uma vida ceifada inutilmente. Isso repete-se diariamente, obrigando muitas famílias a um sofrimento pungente e desnecessário. Mas, como identificar que se corre perigo, como saber que a pessoa que está ao nosso lado é um psicopata em potencial?
Vários estudos vêm sendo desenvolvidos no intuito de se identificar precocemente os sinais que nos levariam a crer que uma determinada pessoa é portadora de algum distúrbios potencialmente danoso para a sociedade. Mas, serão esses sinais fidedignos, ou apenas meros indicadores de alterações que se encontram dentro da normalidade dos indivíduos? Não se trata apenas de identificar o malfeitor, e sim, de proteger o restante da sociedade. E cabe a todos, não acusar pessoas injustamente de algo que não praticaram, nem nunca praticariam. Onde fica o papel da ciência moderna? Psiquiatras e psicólogos forenses são unânimes em afirmar que a psicopatologia se demonstra através de diversos aspectos e das mais variadas formas no doente. Alguns têm comportamento esquizóide desde a infância: não têm amigos, afastam-se das pessoas de sua idade, têm dificuldades de comunicação e muitas vezes (mas nem sempre) têm problemas escolares. Mas isso bastaria para identificar um provável assassino? Claro que não. Outros estudos mais recentes identificaram, na molécula de DNA desses assassinos, uma alteração estrutural que deve ter surgido ao longo dos anos da evolução humana, desencadeando neles um processo de agressividade exagerada e reações muito violentas perante as frustações e dificuldades da vida. Resumindo: se você, cara leitora, tem um namorado ou companheiro que apresenta reações muito agressivas ou que tem um passado de infância semelhante ao que está descrito aqui, tome cuidado. Claro que não é caso para separação imediata, muito menos para internação, mas fique atenta, você pode estar ao lado de um doente, ou pior, de um criminoso em potencial. No caso de dúvida, peça que seu companheiro procure ajuda psicológica, ou ainda, vá até uma delegacia da mulher registrar uma ocorrência, se já tiver sido vítima de alguma agressão.

Rute Radamés Rocha é psicóloga, astróloga, culinarista e escreve todas as quintas-feiras no A VOZ DO BAIRRO .
Contato: ruterocha@mundoaastral.com.br
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A VOZ DO BAIRRO é um jornal de circulação local, distribuído nos bairros Jardim Ângela, Jardim Ranieri, Jardim Herculano e Capão Redondo.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Grotesco 1

Sua voz era intragável. Tantas e tenebrosas palavras despencavam de sua boca, como num jorro interminável de lodo esverdeado. Não queria mais ouví-la, mas impossível era frear a torrente contínua de frases que insistia em derramar. Ela simplesmente 'não conseguia' fazer pausas entre as orações: mal respirava. "Mais um pouco" - pensei- "e terei que lhe conectar uma máscara de oxigênio". Não bastasse o timbre irritante, o resto todo era desagradável, os cabelos sebosos, as unhas sujas e o esmalte descascando. Vestia-se muito mal e usava um amontoado de bijuterias horrorosas em todas articulações visíveis, como se ela própria fosse a vitrine da joalheria. Para piorar, conversava comigo de óculos escuros; e eu não tolero conversar com quem não consiga me olhar nos olhos. Escutava àquele monólogo interminável quando sucedeu o inimaginável. Dentro de sua boca mais que falante, havia uma pequena massa branca e móvel, numa localização correspondente ao pré-molar inferior esquerdo, que estava solto. Enquanto a detestável mulher continuava a me aterrorizar, aquele que deveria ser seu dente, movia-se de um lado para outro com malemolência, envolvido vezes pela língua, ora entrecoberto pelo lábio. "Vai cair", mas o joão-bobo continuava lá, jingando pra todos os lados e diagonais possíveis. Então a conversa sem fim começou a tomar ares de diversão. Imaginava aquele dente finalmente se soltando e sendo engolido. Numa breve pausa em que faria, somente para não se engasgar, a mulher se recomporia e fingindo nada ter ocorrido, continuaria a conversar, banguela. Ou melhor, aquele pedaço de osso saltaria por entre seus lábios e cairia ao chão, provocando-me um acesso de riso, ao que ela responderia com um pequeno achaque nervoso: "Esses profissionais de hoje! Você sabe, menina, que fui semana passada num dentista e ele havia me consertado esse dente, mas veja que o diabo caiu! Aliás, você não imagina..." e alinhavaria uma observação completamente desnecessária sobre a aparência jovial do odontólogo, ou ainda me contaria o imprevisto que acontecera no trânsito a caminho do consultório, e assim continuaria, infinitamente, emendando um assunto no outro. Subitamente ela se levantou e pediu pra tomar água. Tamanha falação havia lhe dado sede, afinal. Depois de servir-se com um copo, sentou-se novamente e desatou a discutir algum assunto sem nenhuma relevância. E foi nesse momento que percebi que aquela massinha branca não era um dente "amolecido" e sim... um pedaço de comida! Uma onda de repulsa lancinante percorreu toda minha coluna vertebral, arrepiando-me, e culminou numa eructação que elegantemente consegui camuflar. Eis que então a massa se destacou da superfície do pré-molar (este sim firmemente aderido à arcada dentária) e começou a dançar na ponta de sua língua , prestes a despencar em qualquer momento. E em todos as sílabas iniciadas com "L" e "D" o pedaço de comida parecia querer saltar em meu colo. Comecei a discretamente empurrar minha cadeira para trás, numa tentativa de fugir ao sórdido e único final que eu conseguia enxergar para a história. Empenhava-me, em vão, a afastar os pensamentos horripilantes que por ora assaltavam minha mente (qual alimento seria, há quanto tempo o teria comido, desde quando aquela "coisa" já fermentava em sua boca), enquanto a bolinha branca sambava por entre lábios e língua, cada vez de tamanho menor (dissolvia-se?) sem nunca parar de rebolar. Minha vontade era de lhe oferecer um copo de água, mas a única ação que conseguia empreender era a de ficar parada, contemplando a cena de horror. Finalmente, após inúmeros ensaios mentais e múltiplas tentativas de interrompê-la no seu discurso ilimitado (o máximo que conseguia dizer eram interjeições desajeitadas, que não a faziam sequer escutar-me), disse a frase que deveria ter dito há tempos, e que a fez demover-se da empreitada de me assassinar de pavor: "A senhora me dá licença, que estão me chamando na outra sala". Levantei-me pra sair. Como foi fácil! E eu há séculos, sendo soterrada por uma montanha de palavras descabidas, querendo morrer ou matar, sentindo ódio de toda humanidade e, principalmente de Deus, que fez nascer aquela pessoa detestável! Ela virou-se pra mim, e já caminhando para a porta, disse: "Ah, então volto outro dia." E a partícula repulsiva, putrefata, de substâncias agora muito mais ricas em microorganismos que nutrientes, saltou de sua cavidade oral, e num espetaculoso salto ornamental, (durante o qual eu imaginei que pudesse estar voando em minha direção, como um exocet) caiu e grudou na saliência que o bico de seu seio fazia na camiseta. A mulher despediu-se. Caminhou desengonçadamente até a porta, com aquele fragmento repugnante de alimento ancorado na blusa, provavelmente à busca de mais um interlocutor mudo e paciente.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

APOCALIPSE (1993)

APOCALIPSE (1993)

Resta
pouco
fim do
mundo
está tão
perto.
Morte
certa
para
todos.
Quase
nada
ao certo
é limpo.
Para
cada
tempo,
cada
época,
há mais
para
ser feito.
O (um) instante
nunca
foi tão
diferente.
Estranho,
como anda
toda gente,
todo povo,
muita gente...
PARE.

Pense
no pouco,
em tudo
o que
resta.

Quero
mais...
Quero
paz.

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TÉDIO (1993)

Tédio e silêncio discutem em minha mente:
“ – Oh tédio, inimigo meu,
por que tão mudo me fizeste?
Minha vida é tão monótona,
Não há no mundo quem conteste!
Expresso-me por idéias,
Pensamentos... falar não.
Não há coisa mais odiosa
Que levar a vida em vão!
Oh tédio, inimigo meu,
Nunca gostastes de mim, não?”
“ – Ah silêncio, não penses assim,
eu nunca fora inimigo teu;
quer você par mais amigo
que meu ócio e o vazio teu?
Digo, ninguém mais desolado
Existe, que eu mesmo,
Pois não és tu, o calado,
Que me fazes andar a esmo?
Não reclames, pois, seu tolo,
Ou me vou agora mesmo!”

E, após o diálogo,
Dançam debilmente um (en)fado.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

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Green Envy Echinacea



Li cada palavra que havia escrito. As letras, uma a uma, foram se agrupando à minha frente e formando aquelas odiosas frases, vindas de uma mente que eu invejava. Ele a amava e eu sabia. Ela iria embora, mas e ele a desejava mesmo assim.
Imaginava seu sorriso, o dela, imensamente aberto e branco. O brilho de seus olhos ofuscando todo um quarto onde haviam acabado de se amar. Tanta luz que eu não suportaria permanecer no lugar sem óculos escuros. Um todo esplêndido e deslumbrante, ao som de um concerto barroco, música de felicidade nostálgica. Então, retornando do onírico à realidade, ele a convidaria para beber. A menina, exalando um hálito de tabaco e cerveja, diria palavras simples que o encantariam; o som de sua voz, sua fragilidade, a dependência... o pedido de ajuda! Toda aquela juventude vulgar que o tornava mais moço e potente; sentia-se forte... imprescindível!!! Suas conversas eram mágicas, disse-me uma vez. Eu nunca conseguiria reproduzir tal cena, com esse conteúdo, contorno, ritmo... De qualquer forma sempre seria ela, não eu.
Agora que se foi, somente eu restei. Que não sou mágica nem nunca serei; que não sei ser especial nem jamais saberei. Que não escrevo nem converso sobre coisas sublimes. Que sofri calada por tantos e mais anos na vida, porém, como não soube pedir ajuda, não o fiz se apaixonar.