De madeira escura é a porta, abre-se. Repleta de vazios, a sala adentro de claridade opaca, lá fora a luz de agora, em dia que não há vento. Fecho a janela que tanta luz me incomoda. O teto é alto, compridíssimo pé direito, de casa de vó em interior, naquelas em que teia de aranha sobrevive eternidade que não há vassoura que chegue. Tinta velha, mas há dignidade nessas paredes. Sobriedade.
O chão pastoso, ensebado me faz escorregar em neves de sujeira. No pouso ao solo penso o pássaro estar contente, terra boa em que se fincar não é fácil de se achar. Caio e planto, raiz e caule, pra nunca mais sair. Mas é preciso conhecer o resto, e parece tanto esse todo resto. Corredor e sala se fundem numa projeção geométrica mal rebordada, de limites imprecisos e assombreados. A copa ampla e colorida traz reminiscências de uma década de livres amores, animadíssimas canções e cabelos longos ao vento. Chão tecido em mosaicos matemáticos que remetem ao infinito. Caminho mais até a cozinha, bege, suja e feia, contudo arejada como um amplo salão de festas antigo. Corredor e copa são uma só coisa, os passos levam até o banheiro, tão distante fora eu, nem acredito estar aqui. Novamente a surpresa dá lugar à admiração, tudo é grande e encardido, nesse antro de azulejos. Viveu a esposa, depois a mãe, ainda a viúva, neste cemitério de histórias. Decrépita casa, retribui ao visitante uma triste e fétida paisagem de memórias do passado. Ali houve uma banheira, diz o zeloso zelador que demonstra o edifício. Vê-se então no chão quebrado, um piso outro que não o colorido, fruto de um malfadado e defeituoso reparo. 'Quero então que seja livre, da água, das gentes, dos vapores' – talvez tenha dito algum. E fez-se retirar a banheira que ora trincada, não poderia mais servir àquela velha claudicante. Quem sabe nem mais conseguia subir no objeto? As histórias nunca vêm completas, pelos meios e metades as sabemos, ai de quem as duvidar, que nunca as vão saber de qualquer modo ou maneira. A luz que entra é muito pouca e raro é o ar que circula pelo recinto. Moscas muitas voam rente às paredes, buscando o mel da antiguidade e dos restos de humanos que ali viveram. Gente deixa açúcar no concreto? Não sei não, mas penso isso naquela hora. Corredor e sanitários se confundem num ruído de abundante descarga com descomunais águas e seu barulho não permite que eu ouça o ranger do piso e batentes, sem exceção gastos e puídos, em que minúsculas pragas comedoras de celulose fizeram morada soberana. Na porta uma barata, na barata uma porta. Fez-se o inseto maldição, e Deus ouvidando-se ou desapercebendo-se, deixou que o Diabo criasse asas com queratínico esqueleto e capas marrons translúcidas-cintilantes de sujeira e lodo, e infestou os subterrâneos das cidades e das cabeças das mulheres medrosas de sua vilania. Preciso ter coragem, deve haver milhões delas. Milhões? Racionalmente tentei me corrigir. Mas a ilógica do pavor é hiperbólica e exuberante, e não há modos de alterar a percepção equivocada da tragédia do porvir. Ou aprende-se a matá-las ou é morta à noite, sufocada por legiões destas bestas-feras que , sabendo-se do seu terror, virão à espreita para apavorá-la e após o terem feito continuamente e com maestria por semanas que durarão séculos em sua mente, chegarão por fim a executá-la com a simples sinfonia do vibrar simultâneo de suas asas – sim! Milhões delas! - causando o estouro de seus tímpanos pela ressonância maldita por Deus e amaldiçoada por todos daquelas partículas aladas e repugnantes. Mas esta estava morta, ou assim parecia. De pernas ao alto, carapaça ao chão, demonstrava a mais humilde e modesta das posições que um monstro desses pode assumir, a da definitiva e única derrota, a hora de sua morte. Pensei na infinidade de armadilhas que deveria comprar, na empresa de dedetização a contratar, com seus funcionários , bravos indômitos, bombando e injetando líquidos venonos e ultratóxicos em todos os orifícios e ralos possíveis; imaginei-as dançando o funesto baile, embriagadas pelo ópio dos piretróides , cambaleando uma dança até o último e inexorável grand-plié, a derrocada final, a morte. Todas elas sucumbiriam, sem perdão dos céus ou compaixão dos terrenos, para seu destino horrososo e necessário. Melhor seria viver nos outros andares, o térreo é sempre mais perigoso e acometido. Que fosse. Agora chega o quarto, importante e último cômodo, do qual antevejo a porta do quintal. Gigante salão, tão maior que a outra gaiola em que vivi nos últimos anos! Quero-o todo, só pra mim, rolar no chão, fazer cambalhotas, saltar do tecido, instalar cama elástica. Chega, nada disso, somente uma cama e meus livros fariam de mim a pessoa mais feliz da Terra. É grande e fede, falei comigo. O zeloso prestador não elogiava nem depreciava, cumpria seu papel, mantendo aquele distanciamento imprescindível aos que mostram apartamentos. Devem ser tantos a cumprir essa trajetória por dia, tão enfadonho esse seu ofício, de dizer sempre as mesmas palavras, 'esta é a sala: esta infiltração tá pra ser consertada, o dono prometeu arrumar antes do novo morador entrar', 'aqui fica a cozinha' ou ainda, 'mas só tem um quarto – você vai morar sozinha?'... e tantos mais. Corri para abrir as janelas mas emperradas que estavam me impediram de satisfazer o sonho pueril de ver o sol entrar. Tudo bem, que a claridade me incomoda. Tanto tempo que não via janelas e portas tão grandes. Desde a casa da avó na infância, mas já fora uma eternidade... Agora sim, derradeira e definitiva é a área de serviço, lavanderia, que não lava nada há muito tempo. A ausência total de objetos faz o pensamento viajar sobre como os gatos andariam neste espaço, rodeados por vasos de plantas e varais de roupas, pulos e alegrias, tombos e satisfações. Num átimo revejo a casa toda desde o início, cheiros e luzes, sombras e detalhes. Quero-a, é minha! Saio exultante, como se a infância me tomasse de súbito e pudesse guiar uma escolha tão importante: assim de faz de conta, de tanto faz, quero desse jeito, não me importo em arrumar. Aqui seremos felizes.
Julia Peres
Abril-2011
segunda-feira, 1 de agosto de 2011
Minduim
Deitado ao chão, debaixo do banco do ponto de ônibus: foi assim que o vi pela primeira vez. Em seus olhos não havia tristeza ou medo, mas sim um brilho que continha toda a benevolência do mundo.
Entrei no banco para resolver algumas questões financeiras. Quando saí, o mesmo cão – permanecia imóvel no local – observava pacientemente os céleres humanos recém-saídos do metrô. Segui meu percurso: seis quadras me separavam do apartamentinho sem varanda em que eu vivia. Fazia todos os dias esse impreterível caminho, de retorno do hospital, numa infinita e enfadonha rotina. Às vezes parava numa doceria para comprar profiteroles, fugaz e predileta alegria. Nessas ocasiões até apressava o passo até minha casa, com gana de provar o doce que já derretia antecipadamente, senão em minha boca, na imaginação. Ao chegar, sentava no sofá acompanhada de uma xícara de capuccino bem quente e deliciava-me com aquela maravilha.
Ainda envolta nestes e outros desimportantes pensamentos, escutei um trotar discreto ao meu lado: fui ultrapassada pelo cão que encontrara a uma quadra. Sorrateiramente, sem me olhar, persistiu na ação inexorável dos cães de rua que é tão somente caminhar, caminhar e caminhar. Mirei-o por um tempo, bonito esse cachorro, devo ter pensado. Em certo momento ele parou e olhou para mim. Sorriu. Ou pelo menos achei que tivesse. Sempre pensei que os cachorros sorrissem, como para nos mostrar que nem tudo está perdido, que o sonho não acabou e que, ao exemplo deles, a humanidade poderia ser melhor, bastava simplificarmos a vida. Detive-me tão logo ele parou, e sorri também. Recomecei a andar em sua direção, o cão voltou a cabeça pra frente e continuou. Agora minha mente se ocupava em destrinchar a obviedade do destino daquele bicho: ele nunca saberia do que se tratam as nossas verdadeiras (?) importâncias, o vazio das existências, as imensas responsabilidades, ou o porquê do homem julgar ser inferior que a máquina melhor que o animal. O cachorro prosseguia, caminhando e sorrindo, alheio a todas essas atribulações. Será que tem dono? Se ficasse solto desse modo, acabaria sendo atropelado, igual a outros tantos por aí. Dobrei a esquina, havia percorrido mais da metade do caminho, restavam apenas duas quadras. Um homem ao meu lado, bonito cachorro, moça. E piscou. Então que me dei conta: não o acariciei nem ofereci comida, que história era essa de me escoltar? Sustive a marcha; aos poucos ele desacelerou e olhou para mim. Estava me esperando? Estagnada, por um minuto talvez, tive a certeza de que me aguardava para restaurar o curso. Atravessei a rua. Ele atravessou . Desatravessei. Ele retornou (naõ sem antes checar se havia carros passando). O cão estava realmente me seguindo! Após uma breve (quase intantânea) reticência, já principiei a fantasiar como seria bom ter um bichinho de estimação, até que meu apartamento não era tão pequeno assim, se bem que o cachorro fosse grande, mas poderia levá-lo todos os dias pra passear, havia os plantões, mas quando voltasse tarde do hospital ainda assim caminharíamos à noite, sabia o bairro calmo, passear com o cachorro seria bom exercício, talvez fosse hora de deixar o sedentarismo. Passei ao lado da confeitaria, uma vontade súbita do doce, porém julguei melhor não entrar. Se o cão não me aguardasse e fosse embora? Consternava-me a ideia de que pudesse partir para longe, afeiçoava-me de sua companhia. Melhor seria não arriscar; a carolina que ficasse para outro dia. Mais adiante, uma senhora acompanhada de um poodle preto me abordou, lindo o cachorro, qual a raça. É vira-lata, mas acho que mestiço de golden retriever. Parabéns. É que... de verdade não é meu não, veio me seguindo desde o metrô. Pois então... é seu! Não sabia que os cachorros escolhem seus donos? Como eu não respondesse nada, perguntou ela ainda, você tem ração em casa. Não. Então entra aqui que te dou um pouco. Entrei na casa dessa senhora (aparentava uns cinquenta anos mas exibia um olhar centenário) que me aconselhou veementemente com milhares de considerações, sobre visitar o veterinário, vermifugar e vacinar, amá-lo incondicionalmente, e outras tantas, ao passo que empanturrava uma sacola plástica com ração bastante para um mês. A baba escorrendo no chão denotava a ânsia com que meu amigo aguardava pela crocante iguaria. Há quantos dias ele não comia, chafurdando os sacos de lixos pela ruas, bebendo água das sarjetas? Despedi-me da generosa alma, não sem antes agradecê-la repetidas vezes; faltava apenas uma quadra para o meu, digo, nosso lar. Acelerei, tinha pressa de chegar, mas ainda tive tempo de projetar nesses últimos passos quais seriam minhas prioridades no fim de semana e quem sabe, na minha vida daí em diante. Queria dar-lhe um banho morno de chuveiro e sair para passear, à moda de todos os donos, com o companheiro preso a um cordão de couro. Solto como hoje está não poderia mais ficar - vai que disparasse com algum gato ou passarinho e fosse atropelado. Pronto, mal conhecera-o e já tinha medo de perdê-lo. O porteiro me reconheceu e destravou o portão eletrônico; deve ter pensado o que seria aquele cachorro sujo e sorridente ao meu lado. Abri e convidei-o: entra! Ficou me olhando embevecidamente, com a boca aberta e a língua descaída, como que a agradecer o obséquio. Seu rabo efusivo abanava tanto, parecia estar desejoso de mergulhar em sua nova família. Entra, vai. E como não respondesse ao meu comando, coloquei as mãos em seu quadril e empurrei-o com força pra dentro do prédio. Depois eu te ensino a obedecer. No elevador, ele trêmulo e assustado, eu a imaginar qual o melhor nome para lhe dar. E foi assim que Minduim, o cão mais encantador do mundo, apareceu em minha vida.
São Paulo, agosto de 2010.
Entrei no banco para resolver algumas questões financeiras. Quando saí, o mesmo cão – permanecia imóvel no local – observava pacientemente os céleres humanos recém-saídos do metrô. Segui meu percurso: seis quadras me separavam do apartamentinho sem varanda em que eu vivia. Fazia todos os dias esse impreterível caminho, de retorno do hospital, numa infinita e enfadonha rotina. Às vezes parava numa doceria para comprar profiteroles, fugaz e predileta alegria. Nessas ocasiões até apressava o passo até minha casa, com gana de provar o doce que já derretia antecipadamente, senão em minha boca, na imaginação. Ao chegar, sentava no sofá acompanhada de uma xícara de capuccino bem quente e deliciava-me com aquela maravilha.
Ainda envolta nestes e outros desimportantes pensamentos, escutei um trotar discreto ao meu lado: fui ultrapassada pelo cão que encontrara a uma quadra. Sorrateiramente, sem me olhar, persistiu na ação inexorável dos cães de rua que é tão somente caminhar, caminhar e caminhar. Mirei-o por um tempo, bonito esse cachorro, devo ter pensado. Em certo momento ele parou e olhou para mim. Sorriu. Ou pelo menos achei que tivesse. Sempre pensei que os cachorros sorrissem, como para nos mostrar que nem tudo está perdido, que o sonho não acabou e que, ao exemplo deles, a humanidade poderia ser melhor, bastava simplificarmos a vida. Detive-me tão logo ele parou, e sorri também. Recomecei a andar em sua direção, o cão voltou a cabeça pra frente e continuou. Agora minha mente se ocupava em destrinchar a obviedade do destino daquele bicho: ele nunca saberia do que se tratam as nossas verdadeiras (?) importâncias, o vazio das existências, as imensas responsabilidades, ou o porquê do homem julgar ser inferior que a máquina melhor que o animal. O cachorro prosseguia, caminhando e sorrindo, alheio a todas essas atribulações. Será que tem dono? Se ficasse solto desse modo, acabaria sendo atropelado, igual a outros tantos por aí. Dobrei a esquina, havia percorrido mais da metade do caminho, restavam apenas duas quadras. Um homem ao meu lado, bonito cachorro, moça. E piscou. Então que me dei conta: não o acariciei nem ofereci comida, que história era essa de me escoltar? Sustive a marcha; aos poucos ele desacelerou e olhou para mim. Estava me esperando? Estagnada, por um minuto talvez, tive a certeza de que me aguardava para restaurar o curso. Atravessei a rua. Ele atravessou . Desatravessei. Ele retornou (naõ sem antes checar se havia carros passando). O cão estava realmente me seguindo! Após uma breve (quase intantânea) reticência, já principiei a fantasiar como seria bom ter um bichinho de estimação, até que meu apartamento não era tão pequeno assim, se bem que o cachorro fosse grande, mas poderia levá-lo todos os dias pra passear, havia os plantões, mas quando voltasse tarde do hospital ainda assim caminharíamos à noite, sabia o bairro calmo, passear com o cachorro seria bom exercício, talvez fosse hora de deixar o sedentarismo. Passei ao lado da confeitaria, uma vontade súbita do doce, porém julguei melhor não entrar. Se o cão não me aguardasse e fosse embora? Consternava-me a ideia de que pudesse partir para longe, afeiçoava-me de sua companhia. Melhor seria não arriscar; a carolina que ficasse para outro dia. Mais adiante, uma senhora acompanhada de um poodle preto me abordou, lindo o cachorro, qual a raça. É vira-lata, mas acho que mestiço de golden retriever. Parabéns. É que... de verdade não é meu não, veio me seguindo desde o metrô. Pois então... é seu! Não sabia que os cachorros escolhem seus donos? Como eu não respondesse nada, perguntou ela ainda, você tem ração em casa. Não. Então entra aqui que te dou um pouco. Entrei na casa dessa senhora (aparentava uns cinquenta anos mas exibia um olhar centenário) que me aconselhou veementemente com milhares de considerações, sobre visitar o veterinário, vermifugar e vacinar, amá-lo incondicionalmente, e outras tantas, ao passo que empanturrava uma sacola plástica com ração bastante para um mês. A baba escorrendo no chão denotava a ânsia com que meu amigo aguardava pela crocante iguaria. Há quantos dias ele não comia, chafurdando os sacos de lixos pela ruas, bebendo água das sarjetas? Despedi-me da generosa alma, não sem antes agradecê-la repetidas vezes; faltava apenas uma quadra para o meu, digo, nosso lar. Acelerei, tinha pressa de chegar, mas ainda tive tempo de projetar nesses últimos passos quais seriam minhas prioridades no fim de semana e quem sabe, na minha vida daí em diante. Queria dar-lhe um banho morno de chuveiro e sair para passear, à moda de todos os donos, com o companheiro preso a um cordão de couro. Solto como hoje está não poderia mais ficar - vai que disparasse com algum gato ou passarinho e fosse atropelado. Pronto, mal conhecera-o e já tinha medo de perdê-lo. O porteiro me reconheceu e destravou o portão eletrônico; deve ter pensado o que seria aquele cachorro sujo e sorridente ao meu lado. Abri e convidei-o: entra! Ficou me olhando embevecidamente, com a boca aberta e a língua descaída, como que a agradecer o obséquio. Seu rabo efusivo abanava tanto, parecia estar desejoso de mergulhar em sua nova família. Entra, vai. E como não respondesse ao meu comando, coloquei as mãos em seu quadril e empurrei-o com força pra dentro do prédio. Depois eu te ensino a obedecer. No elevador, ele trêmulo e assustado, eu a imaginar qual o melhor nome para lhe dar. E foi assim que Minduim, o cão mais encantador do mundo, apareceu em minha vida.
São Paulo, agosto de 2010.
segunda-feira, 13 de abril de 2009
A vida é um rol de descontentamentos
Contento-me descontente
após breve e desconcertante tormento .
Constantemente me alegro
Constatando a alegria em contidos contêineres vazios.
Contenho dúvidas, contudo sinto somente.
Compreendo entretanto que tudo é raso e rente, pouco e reticente.
Por via das dúvidas, tranco a chave minha mente.
Em vão. Insuficiente.
Influenciando a música, canto um solo assim silente.
Conto, sã e serenamente, o que de fato é meu presente.
Sinto muito se, no entanto, nunca fora: o agora é sempre.
Entre tantos, entrementes... fico aqui eternamente.
E sinto a fuga, essa eterna insolente,
ora sumindo, protelando, ora partindo os pensamentos.
Basta! Pois que a vida é luta, dívida imensa e permanente,
e sempremente, será um rol de descontentamentos.
após breve e desconcertante tormento .
Constantemente me alegro
Constatando a alegria em contidos contêineres vazios.
Contenho dúvidas, contudo sinto somente.
Compreendo entretanto que tudo é raso e rente, pouco e reticente.
Por via das dúvidas, tranco a chave minha mente.
Em vão. Insuficiente.
Influenciando a música, canto um solo assim silente.
Conto, sã e serenamente, o que de fato é meu presente.
Sinto muito se, no entanto, nunca fora: o agora é sempre.
Entre tantos, entrementes... fico aqui eternamente.
E sinto a fuga, essa eterna insolente,
ora sumindo, protelando, ora partindo os pensamentos.
Basta! Pois que a vida é luta, dívida imensa e permanente,
e sempremente, será um rol de descontentamentos.
quinta-feira, 26 de março de 2009
segunda-feira, 16 de março de 2009
A VOZ DO BAIRRO
São Paulo, 5 de março de 2009.
Belo Antonio mata noiva e foge
Por Adolfo Vasconcelos
Antonio Santos da Silva, 29 anos, é acusado de esfaquear a noiva, Bárbara Pereira, de 23 anos, às 22 horas do último sábado, no bairro Jardim Ângela, Zona Sul de São Paulo. Encontra-se foragido desde então. O rapaz residia no bairro e trabalhava como auxiliar de escritório num edifício comercial na Bela Vista. Considerado “ótima pessoa” pelos seus familiares e vizinhos, todos se encontram chocados com o ocorrido. Bárbara era discreta e não possuía muitas amizades na comunidade, segundo moradores locais; órfã desde os 15 anos, vivia com mais dois irmãos em um barraco na favela Caiçara e trabalhava como empregada doméstica. O corpo da jovem assassinada foi encontrado num terreno baldio próximo à casa de Antonio, onde ele morava com sua mãe e irmã mais nova. O cadáver apresentava sinais de extrema violência, como marcas de cigarro e unhas avulsionadas dos dedos das mãos e dos pés. A polícia trabalha com a hipótese de tortura. Um morador local , quando questionado pela reportagem, disse que Antonio era uma pessoa extremamente calma e dócil, além de muito bonito, o que lhe conferiu o apelido de "Belo Antonio": “Um cara do bem, não entendo como foi fazer uma desgraceira dessas....”. A mãe de Antonio, em estado de choque, não quis falar com os repórteres. Foram ouvidos outros moradores, que disseram ser “colegas” de Antonio, mas não quiseram se identificar. Um deles disse que Antonio era homossexual e fora visto beijando outros rapazes. A melhor amiga da vítima disse que o casal brigava muito, e Bárbara havia lhe contado que Antonio sofria de impotência sexual. Digressões à parte, o certo é que o caso está sendo tratado como prioridade pela polícia: “Um homem como esse não pode ficar solto pelas ruas, é provável que faça uma próxima vítima. A polícia está se empenhando muito nas investigações, que já estão bem adiantadas.” - garante o delegado Silveira da Rocha, do 47o DP, de Capão Redondo.
A Sociedade tem a VOZ
O mundo encontra-se inserido numa terrível e constante onda de violência. São poucas as famílias que nunca sofreram, direta ou indiretamente, algum caso de violência por parte dos próprios familiares ou de crimonosos. Falta educação, falta moradia, mas, principalmente, falta segurança. O caso Bárbara-Antonio ilustra bem esse descaso das autoridades públicas com a sociedade. A moça foi vista saindo da escola às 21h da noite e segundo próprio laudo da perícia legal, foi, sob a ameaça de uma arma, obrigada a caminhar por 400 ou 500 m até o terreno baldio onde teria sua vida roubada. Como poderia ninguém ter visto um rapaz com uma arma apontada para uma moça, durante um trajeto de 500 metros? Não havia realmente ninguém na rua? E se não havia, a polícia não deveria estar lá? É por essas e mais outras que eu sempre digo: falta policiamento ostensivo nas ruas de São Paulo, principalmente nas periferias, onde os casos de violência são mais frequentes. Mais uma vez vemos uma vida desperdiçada; as famílias foram eternamente desgraçadas, ninguém mais devolverá a alegria para essas pessoas que tanto a amavam. Vamos dar um basta nisso! Vamos exigir mais da polícia!
Adalberto Ramos é comerciante e filiado do ACJA (Ação Comunitária Jardim Ângela); foi candidato a vereador nas últimas eleições pelo PPPP. Contato: bertao@acja.com.br
VOZ da Psicóloga
Mais uma vez vemos uma vida ceifada inutilmente. Isso repete-se diariamente, obrigando muitas famílias a um sofrimento pungente e desnecessário. Mas, como identificar que se corre perigo, como saber que a pessoa que está ao nosso lado é um psicopata em potencial?
Vários estudos vêm sendo desenvolvidos no intuito de se identificar precocemente os sinais que nos levariam a crer que uma determinada pessoa é portadora de algum distúrbios potencialmente danoso para a sociedade. Mas, serão esses sinais fidedignos, ou apenas meros indicadores de alterações que se encontram dentro da normalidade dos indivíduos? Não se trata apenas de identificar o malfeitor, e sim, de proteger o restante da sociedade. E cabe a todos, não acusar pessoas injustamente de algo que não praticaram, nem nunca praticariam. Onde fica o papel da ciência moderna? Psiquiatras e psicólogos forenses são unânimes em afirmar que a psicopatologia se demonstra através de diversos aspectos e das mais variadas formas no doente. Alguns têm comportamento esquizóide desde a infância: não têm amigos, afastam-se das pessoas de sua idade, têm dificuldades de comunicação e muitas vezes (mas nem sempre) têm problemas escolares. Mas isso bastaria para identificar um provável assassino? Claro que não. Outros estudos mais recentes identificaram, na molécula de DNA desses assassinos, uma alteração estrutural que deve ter surgido ao longo dos anos da evolução humana, desencadeando neles um processo de agressividade exagerada e reações muito violentas perante as frustações e dificuldades da vida. Resumindo: se você, cara leitora, tem um namorado ou companheiro que apresenta reações muito agressivas ou que tem um passado de infância semelhante ao que está descrito aqui, tome cuidado. Claro que não é caso para separação imediata, muito menos para internação, mas fique atenta, você pode estar ao lado de um doente, ou pior, de um criminoso em potencial. No caso de dúvida, peça que seu companheiro procure ajuda psicológica, ou ainda, vá até uma delegacia da mulher registrar uma ocorrência, se já tiver sido vítima de alguma agressão.
Rute Radamés Rocha é psicóloga, astróloga, culinarista e escreve todas as quintas-feiras no A VOZ DO BAIRRO .
Contato: ruterocha@mundoaastral.com.br
___________________________________________________________
A VOZ DO BAIRRO é um jornal de circulação local, distribuído nos bairros Jardim Ângela, Jardim Ranieri, Jardim Herculano e Capão Redondo.
Belo Antonio mata noiva e foge
Por Adolfo Vasconcelos
Antonio Santos da Silva, 29 anos, é acusado de esfaquear a noiva, Bárbara Pereira, de 23 anos, às 22 horas do último sábado, no bairro Jardim Ângela, Zona Sul de São Paulo. Encontra-se foragido desde então. O rapaz residia no bairro e trabalhava como auxiliar de escritório num edifício comercial na Bela Vista. Considerado “ótima pessoa” pelos seus familiares e vizinhos, todos se encontram chocados com o ocorrido. Bárbara era discreta e não possuía muitas amizades na comunidade, segundo moradores locais; órfã desde os 15 anos, vivia com mais dois irmãos em um barraco na favela Caiçara e trabalhava como empregada doméstica. O corpo da jovem assassinada foi encontrado num terreno baldio próximo à casa de Antonio, onde ele morava com sua mãe e irmã mais nova. O cadáver apresentava sinais de extrema violência, como marcas de cigarro e unhas avulsionadas dos dedos das mãos e dos pés. A polícia trabalha com a hipótese de tortura. Um morador local , quando questionado pela reportagem, disse que Antonio era uma pessoa extremamente calma e dócil, além de muito bonito, o que lhe conferiu o apelido de "Belo Antonio": “Um cara do bem, não entendo como foi fazer uma desgraceira dessas....”. A mãe de Antonio, em estado de choque, não quis falar com os repórteres. Foram ouvidos outros moradores, que disseram ser “colegas” de Antonio, mas não quiseram se identificar. Um deles disse que Antonio era homossexual e fora visto beijando outros rapazes. A melhor amiga da vítima disse que o casal brigava muito, e Bárbara havia lhe contado que Antonio sofria de impotência sexual. Digressões à parte, o certo é que o caso está sendo tratado como prioridade pela polícia: “Um homem como esse não pode ficar solto pelas ruas, é provável que faça uma próxima vítima. A polícia está se empenhando muito nas investigações, que já estão bem adiantadas.” - garante o delegado Silveira da Rocha, do 47o DP, de Capão Redondo.
A Sociedade tem a VOZ
O mundo encontra-se inserido numa terrível e constante onda de violência. São poucas as famílias que nunca sofreram, direta ou indiretamente, algum caso de violência por parte dos próprios familiares ou de crimonosos. Falta educação, falta moradia, mas, principalmente, falta segurança. O caso Bárbara-Antonio ilustra bem esse descaso das autoridades públicas com a sociedade. A moça foi vista saindo da escola às 21h da noite e segundo próprio laudo da perícia legal, foi, sob a ameaça de uma arma, obrigada a caminhar por 400 ou 500 m até o terreno baldio onde teria sua vida roubada. Como poderia ninguém ter visto um rapaz com uma arma apontada para uma moça, durante um trajeto de 500 metros? Não havia realmente ninguém na rua? E se não havia, a polícia não deveria estar lá? É por essas e mais outras que eu sempre digo: falta policiamento ostensivo nas ruas de São Paulo, principalmente nas periferias, onde os casos de violência são mais frequentes. Mais uma vez vemos uma vida desperdiçada; as famílias foram eternamente desgraçadas, ninguém mais devolverá a alegria para essas pessoas que tanto a amavam. Vamos dar um basta nisso! Vamos exigir mais da polícia!
Adalberto Ramos é comerciante e filiado do ACJA (Ação Comunitária Jardim Ângela); foi candidato a vereador nas últimas eleições pelo PPPP. Contato: bertao@acja.com.br
VOZ da Psicóloga
Mais uma vez vemos uma vida ceifada inutilmente. Isso repete-se diariamente, obrigando muitas famílias a um sofrimento pungente e desnecessário. Mas, como identificar que se corre perigo, como saber que a pessoa que está ao nosso lado é um psicopata em potencial?
Vários estudos vêm sendo desenvolvidos no intuito de se identificar precocemente os sinais que nos levariam a crer que uma determinada pessoa é portadora de algum distúrbios potencialmente danoso para a sociedade. Mas, serão esses sinais fidedignos, ou apenas meros indicadores de alterações que se encontram dentro da normalidade dos indivíduos? Não se trata apenas de identificar o malfeitor, e sim, de proteger o restante da sociedade. E cabe a todos, não acusar pessoas injustamente de algo que não praticaram, nem nunca praticariam. Onde fica o papel da ciência moderna? Psiquiatras e psicólogos forenses são unânimes em afirmar que a psicopatologia se demonstra através de diversos aspectos e das mais variadas formas no doente. Alguns têm comportamento esquizóide desde a infância: não têm amigos, afastam-se das pessoas de sua idade, têm dificuldades de comunicação e muitas vezes (mas nem sempre) têm problemas escolares. Mas isso bastaria para identificar um provável assassino? Claro que não. Outros estudos mais recentes identificaram, na molécula de DNA desses assassinos, uma alteração estrutural que deve ter surgido ao longo dos anos da evolução humana, desencadeando neles um processo de agressividade exagerada e reações muito violentas perante as frustações e dificuldades da vida. Resumindo: se você, cara leitora, tem um namorado ou companheiro que apresenta reações muito agressivas ou que tem um passado de infância semelhante ao que está descrito aqui, tome cuidado. Claro que não é caso para separação imediata, muito menos para internação, mas fique atenta, você pode estar ao lado de um doente, ou pior, de um criminoso em potencial. No caso de dúvida, peça que seu companheiro procure ajuda psicológica, ou ainda, vá até uma delegacia da mulher registrar uma ocorrência, se já tiver sido vítima de alguma agressão.
Rute Radamés Rocha é psicóloga, astróloga, culinarista e escreve todas as quintas-feiras no A VOZ DO BAIRRO .
Contato: ruterocha@mundoaastral.com.br
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A VOZ DO BAIRRO é um jornal de circulação local, distribuído nos bairros Jardim Ângela, Jardim Ranieri, Jardim Herculano e Capão Redondo.
sexta-feira, 23 de janeiro de 2009
Grotesco 1
Sua voz era intragável. Tantas e tenebrosas palavras despencavam de sua boca, como num jorro interminável de lodo esverdeado. Não queria mais ouví-la, mas impossível era frear a torrente contínua de frases que insistia em derramar. Ela simplesmente 'não conseguia' fazer pausas entre as orações: mal respirava. "Mais um pouco" - pensei- "e terei que lhe conectar uma máscara de oxigênio". Não bastasse o timbre irritante, o resto todo era desagradável, os cabelos sebosos, as unhas sujas e o esmalte descascando. Vestia-se muito mal e usava um amontoado de bijuterias horrorosas em todas articulações visíveis, como se ela própria fosse a vitrine da joalheria. Para piorar, conversava comigo de óculos escuros; e eu não tolero conversar com quem não consiga me olhar nos olhos. Escutava àquele monólogo interminável quando sucedeu o inimaginável. Dentro de sua boca mais que falante, havia uma pequena massa branca e móvel, numa localização correspondente ao pré-molar inferior esquerdo, que estava solto. Enquanto a detestável mulher continuava a me aterrorizar, aquele que deveria ser seu dente, movia-se de um lado para outro com malemolência, envolvido vezes pela língua, ora entrecoberto pelo lábio. "Vai cair", mas o joão-bobo continuava lá, jingando pra todos os lados e diagonais possíveis. Então a conversa sem fim começou a tomar ares de diversão. Imaginava aquele dente finalmente se soltando e sendo engolido. Numa breve pausa em que faria, somente para não se engasgar, a mulher se recomporia e fingindo nada ter ocorrido, continuaria a conversar, banguela. Ou melhor, aquele pedaço de osso saltaria por entre seus lábios e cairia ao chão, provocando-me um acesso de riso, ao que ela responderia com um pequeno achaque nervoso: "Esses profissionais de hoje! Você sabe, menina, que fui semana passada num dentista e ele havia me consertado esse dente, mas veja que o diabo caiu! Aliás, você não imagina..." e alinhavaria uma observação completamente desnecessária sobre a aparência jovial do odontólogo, ou ainda me contaria o imprevisto que acontecera no trânsito a caminho do consultório, e assim continuaria, infinitamente, emendando um assunto no outro. Subitamente ela se levantou e pediu pra tomar água. Tamanha falação havia lhe dado sede, afinal. Depois de servir-se com um copo, sentou-se novamente e desatou a discutir algum assunto sem nenhuma relevância. E foi nesse momento que percebi que aquela massinha branca não era um dente "amolecido" e sim... um pedaço de comida! Uma onda de repulsa lancinante percorreu toda minha coluna vertebral, arrepiando-me, e culminou numa eructação que elegantemente consegui camuflar. Eis que então a massa se destacou da superfície do pré-molar (este sim firmemente aderido à arcada dentária) e começou a dançar na ponta de sua língua , prestes a despencar em qualquer momento. E em todos as sílabas iniciadas com "L" e "D" o pedaço de comida parecia querer saltar em meu colo. Comecei a discretamente empurrar minha cadeira para trás, numa tentativa de fugir ao sórdido e único final que eu conseguia enxergar para a história. Empenhava-me, em vão, a afastar os pensamentos horripilantes que por ora assaltavam minha mente (qual alimento seria, há quanto tempo o teria comido, desde quando aquela "coisa" já fermentava em sua boca), enquanto a bolinha branca sambava por entre lábios e língua, cada vez de tamanho menor (dissolvia-se?) sem nunca parar de rebolar. Minha vontade era de lhe oferecer um copo de água, mas a única ação que conseguia empreender era a de ficar parada, contemplando a cena de horror. Finalmente, após inúmeros ensaios mentais e múltiplas tentativas de interrompê-la no seu discurso ilimitado (o máximo que conseguia dizer eram interjeições desajeitadas, que não a faziam sequer escutar-me), disse a frase que deveria ter dito há tempos, e que a fez demover-se da empreitada de me assassinar de pavor: "A senhora me dá licença, que estão me chamando na outra sala". Levantei-me pra sair. Como foi fácil! E eu há séculos, sendo soterrada por uma montanha de palavras descabidas, querendo morrer ou matar, sentindo ódio de toda humanidade e, principalmente de Deus, que fez nascer aquela pessoa detestável! Ela virou-se pra mim, e já caminhando para a porta, disse: "Ah, então volto outro dia." E a partícula repulsiva, putrefata, de substâncias agora muito mais ricas em microorganismos que nutrientes, saltou de sua cavidade oral, e num espetaculoso salto ornamental, (durante o qual eu imaginei que pudesse estar voando em minha direção, como um exocet) caiu e grudou na saliência que o bico de seu seio fazia na camiseta. A mulher despediu-se. Caminhou desengonçadamente até a porta, com aquele fragmento repugnante de alimento ancorado na blusa, provavelmente à busca de mais um interlocutor mudo e paciente.
terça-feira, 20 de janeiro de 2009
APOCALIPSE (1993)
APOCALIPSE (1993)
Resta
pouco
fim do
mundo
está tão
perto.
Morte
certa
para
todos.
Quase
nada
ao certo
é limpo.
Para
cada
tempo,
cada
época,
há mais
para
ser feito.
O (um) instante
nunca
foi tão
diferente.
Estranho,
como anda
toda gente,
todo povo,
muita gente...
PARE.
Pense
no pouco,
em tudo
o que
resta.
Quero
mais...
Quero
paz.
__________________
TÉDIO (1993)
Tédio e silêncio discutem em minha mente:
“ – Oh tédio, inimigo meu,
por que tão mudo me fizeste?
Minha vida é tão monótona,
Não há no mundo quem conteste!
Expresso-me por idéias,
Pensamentos... falar não.
Não há coisa mais odiosa
Que levar a vida em vão!
Oh tédio, inimigo meu,
Nunca gostastes de mim, não?”
“ – Ah silêncio, não penses assim,
eu nunca fora inimigo teu;
quer você par mais amigo
que meu ócio e o vazio teu?
Digo, ninguém mais desolado
Existe, que eu mesmo,
Pois não és tu, o calado,
Que me fazes andar a esmo?
Não reclames, pois, seu tolo,
Ou me vou agora mesmo!”
E, após o diálogo,
Dançam debilmente um (en)fado.
Resta
pouco
fim do
mundo
está tão
perto.
Morte
certa
para
todos.
Quase
nada
ao certo
é limpo.
Para
cada
tempo,
cada
época,
há mais
para
ser feito.
O (um) instante
nunca
foi tão
diferente.
Estranho,
como anda
toda gente,
todo povo,
muita gente...
PARE.
Pense
no pouco,
em tudo
o que
resta.
Quero
mais...
Quero
paz.
__________________
TÉDIO (1993)
Tédio e silêncio discutem em minha mente:
“ – Oh tédio, inimigo meu,
por que tão mudo me fizeste?
Minha vida é tão monótona,
Não há no mundo quem conteste!
Expresso-me por idéias,
Pensamentos... falar não.
Não há coisa mais odiosa
Que levar a vida em vão!
Oh tédio, inimigo meu,
Nunca gostastes de mim, não?”
“ – Ah silêncio, não penses assim,
eu nunca fora inimigo teu;
quer você par mais amigo
que meu ócio e o vazio teu?
Digo, ninguém mais desolado
Existe, que eu mesmo,
Pois não és tu, o calado,
Que me fazes andar a esmo?
Não reclames, pois, seu tolo,
Ou me vou agora mesmo!”
E, após o diálogo,
Dançam debilmente um (en)fado.
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