Deitado ao chão, debaixo do banco do ponto de ônibus: foi assim que o vi pela primeira vez. Em seus olhos não havia tristeza ou medo, mas sim um brilho que continha toda a benevolência do mundo.
Entrei no banco para resolver algumas questões financeiras. Quando saí, o mesmo cão – permanecia imóvel no local – observava pacientemente os céleres humanos recém-saídos do metrô. Segui meu percurso: seis quadras me separavam do apartamentinho sem varanda em que eu vivia. Fazia todos os dias esse impreterível caminho, de retorno do hospital, numa infinita e enfadonha rotina. Às vezes parava numa doceria para comprar profiteroles, fugaz e predileta alegria. Nessas ocasiões até apressava o passo até minha casa, com gana de provar o doce que já derretia antecipadamente, senão em minha boca, na imaginação. Ao chegar, sentava no sofá acompanhada de uma xícara de capuccino bem quente e deliciava-me com aquela maravilha.
Ainda envolta nestes e outros desimportantes pensamentos, escutei um trotar discreto ao meu lado: fui ultrapassada pelo cão que encontrara a uma quadra. Sorrateiramente, sem me olhar, persistiu na ação inexorável dos cães de rua que é tão somente caminhar, caminhar e caminhar. Mirei-o por um tempo, bonito esse cachorro, devo ter pensado. Em certo momento ele parou e olhou para mim. Sorriu. Ou pelo menos achei que tivesse. Sempre pensei que os cachorros sorrissem, como para nos mostrar que nem tudo está perdido, que o sonho não acabou e que, ao exemplo deles, a humanidade poderia ser melhor, bastava simplificarmos a vida. Detive-me tão logo ele parou, e sorri também. Recomecei a andar em sua direção, o cão voltou a cabeça pra frente e continuou. Agora minha mente se ocupava em destrinchar a obviedade do destino daquele bicho: ele nunca saberia do que se tratam as nossas verdadeiras (?) importâncias, o vazio das existências, as imensas responsabilidades, ou o porquê do homem julgar ser inferior que a máquina melhor que o animal. O cachorro prosseguia, caminhando e sorrindo, alheio a todas essas atribulações. Será que tem dono? Se ficasse solto desse modo, acabaria sendo atropelado, igual a outros tantos por aí. Dobrei a esquina, havia percorrido mais da metade do caminho, restavam apenas duas quadras. Um homem ao meu lado, bonito cachorro, moça. E piscou. Então que me dei conta: não o acariciei nem ofereci comida, que história era essa de me escoltar? Sustive a marcha; aos poucos ele desacelerou e olhou para mim. Estava me esperando? Estagnada, por um minuto talvez, tive a certeza de que me aguardava para restaurar o curso. Atravessei a rua. Ele atravessou . Desatravessei. Ele retornou (naõ sem antes checar se havia carros passando). O cão estava realmente me seguindo! Após uma breve (quase intantânea) reticência, já principiei a fantasiar como seria bom ter um bichinho de estimação, até que meu apartamento não era tão pequeno assim, se bem que o cachorro fosse grande, mas poderia levá-lo todos os dias pra passear, havia os plantões, mas quando voltasse tarde do hospital ainda assim caminharíamos à noite, sabia o bairro calmo, passear com o cachorro seria bom exercício, talvez fosse hora de deixar o sedentarismo. Passei ao lado da confeitaria, uma vontade súbita do doce, porém julguei melhor não entrar. Se o cão não me aguardasse e fosse embora? Consternava-me a ideia de que pudesse partir para longe, afeiçoava-me de sua companhia. Melhor seria não arriscar; a carolina que ficasse para outro dia. Mais adiante, uma senhora acompanhada de um poodle preto me abordou, lindo o cachorro, qual a raça. É vira-lata, mas acho que mestiço de golden retriever. Parabéns. É que... de verdade não é meu não, veio me seguindo desde o metrô. Pois então... é seu! Não sabia que os cachorros escolhem seus donos? Como eu não respondesse nada, perguntou ela ainda, você tem ração em casa. Não. Então entra aqui que te dou um pouco. Entrei na casa dessa senhora (aparentava uns cinquenta anos mas exibia um olhar centenário) que me aconselhou veementemente com milhares de considerações, sobre visitar o veterinário, vermifugar e vacinar, amá-lo incondicionalmente, e outras tantas, ao passo que empanturrava uma sacola plástica com ração bastante para um mês. A baba escorrendo no chão denotava a ânsia com que meu amigo aguardava pela crocante iguaria. Há quantos dias ele não comia, chafurdando os sacos de lixos pela ruas, bebendo água das sarjetas? Despedi-me da generosa alma, não sem antes agradecê-la repetidas vezes; faltava apenas uma quadra para o meu, digo, nosso lar. Acelerei, tinha pressa de chegar, mas ainda tive tempo de projetar nesses últimos passos quais seriam minhas prioridades no fim de semana e quem sabe, na minha vida daí em diante. Queria dar-lhe um banho morno de chuveiro e sair para passear, à moda de todos os donos, com o companheiro preso a um cordão de couro. Solto como hoje está não poderia mais ficar - vai que disparasse com algum gato ou passarinho e fosse atropelado. Pronto, mal conhecera-o e já tinha medo de perdê-lo. O porteiro me reconheceu e destravou o portão eletrônico; deve ter pensado o que seria aquele cachorro sujo e sorridente ao meu lado. Abri e convidei-o: entra! Ficou me olhando embevecidamente, com a boca aberta e a língua descaída, como que a agradecer o obséquio. Seu rabo efusivo abanava tanto, parecia estar desejoso de mergulhar em sua nova família. Entra, vai. E como não respondesse ao meu comando, coloquei as mãos em seu quadril e empurrei-o com força pra dentro do prédio. Depois eu te ensino a obedecer. No elevador, ele trêmulo e assustado, eu a imaginar qual o melhor nome para lhe dar. E foi assim que Minduim, o cão mais encantador do mundo, apareceu em minha vida.
São Paulo, agosto de 2010.
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