sexta-feira, 23 de janeiro de 2009
Grotesco 1
Sua voz era intragável. Tantas e tenebrosas palavras despencavam de sua boca, como num jorro interminável de lodo esverdeado. Não queria mais ouví-la, mas impossível era frear a torrente contínua de frases que insistia em derramar. Ela simplesmente 'não conseguia' fazer pausas entre as orações: mal respirava. "Mais um pouco" - pensei- "e terei que lhe conectar uma máscara de oxigênio". Não bastasse o timbre irritante, o resto todo era desagradável, os cabelos sebosos, as unhas sujas e o esmalte descascando. Vestia-se muito mal e usava um amontoado de bijuterias horrorosas em todas articulações visíveis, como se ela própria fosse a vitrine da joalheria. Para piorar, conversava comigo de óculos escuros; e eu não tolero conversar com quem não consiga me olhar nos olhos. Escutava àquele monólogo interminável quando sucedeu o inimaginável. Dentro de sua boca mais que falante, havia uma pequena massa branca e móvel, numa localização correspondente ao pré-molar inferior esquerdo, que estava solto. Enquanto a detestável mulher continuava a me aterrorizar, aquele que deveria ser seu dente, movia-se de um lado para outro com malemolência, envolvido vezes pela língua, ora entrecoberto pelo lábio. "Vai cair", mas o joão-bobo continuava lá, jingando pra todos os lados e diagonais possíveis. Então a conversa sem fim começou a tomar ares de diversão. Imaginava aquele dente finalmente se soltando e sendo engolido. Numa breve pausa em que faria, somente para não se engasgar, a mulher se recomporia e fingindo nada ter ocorrido, continuaria a conversar, banguela. Ou melhor, aquele pedaço de osso saltaria por entre seus lábios e cairia ao chão, provocando-me um acesso de riso, ao que ela responderia com um pequeno achaque nervoso: "Esses profissionais de hoje! Você sabe, menina, que fui semana passada num dentista e ele havia me consertado esse dente, mas veja que o diabo caiu! Aliás, você não imagina..." e alinhavaria uma observação completamente desnecessária sobre a aparência jovial do odontólogo, ou ainda me contaria o imprevisto que acontecera no trânsito a caminho do consultório, e assim continuaria, infinitamente, emendando um assunto no outro. Subitamente ela se levantou e pediu pra tomar água. Tamanha falação havia lhe dado sede, afinal. Depois de servir-se com um copo, sentou-se novamente e desatou a discutir algum assunto sem nenhuma relevância. E foi nesse momento que percebi que aquela massinha branca não era um dente "amolecido" e sim... um pedaço de comida! Uma onda de repulsa lancinante percorreu toda minha coluna vertebral, arrepiando-me, e culminou numa eructação que elegantemente consegui camuflar. Eis que então a massa se destacou da superfície do pré-molar (este sim firmemente aderido à arcada dentária) e começou a dançar na ponta de sua língua , prestes a despencar em qualquer momento. E em todos as sílabas iniciadas com "L" e "D" o pedaço de comida parecia querer saltar em meu colo. Comecei a discretamente empurrar minha cadeira para trás, numa tentativa de fugir ao sórdido e único final que eu conseguia enxergar para a história. Empenhava-me, em vão, a afastar os pensamentos horripilantes que por ora assaltavam minha mente (qual alimento seria, há quanto tempo o teria comido, desde quando aquela "coisa" já fermentava em sua boca), enquanto a bolinha branca sambava por entre lábios e língua, cada vez de tamanho menor (dissolvia-se?) sem nunca parar de rebolar. Minha vontade era de lhe oferecer um copo de água, mas a única ação que conseguia empreender era a de ficar parada, contemplando a cena de horror. Finalmente, após inúmeros ensaios mentais e múltiplas tentativas de interrompê-la no seu discurso ilimitado (o máximo que conseguia dizer eram interjeições desajeitadas, que não a faziam sequer escutar-me), disse a frase que deveria ter dito há tempos, e que a fez demover-se da empreitada de me assassinar de pavor: "A senhora me dá licença, que estão me chamando na outra sala". Levantei-me pra sair. Como foi fácil! E eu há séculos, sendo soterrada por uma montanha de palavras descabidas, querendo morrer ou matar, sentindo ódio de toda humanidade e, principalmente de Deus, que fez nascer aquela pessoa detestável! Ela virou-se pra mim, e já caminhando para a porta, disse: "Ah, então volto outro dia." E a partícula repulsiva, putrefata, de substâncias agora muito mais ricas em microorganismos que nutrientes, saltou de sua cavidade oral, e num espetaculoso salto ornamental, (durante o qual eu imaginei que pudesse estar voando em minha direção, como um exocet) caiu e grudou na saliência que o bico de seu seio fazia na camiseta. A mulher despediu-se. Caminhou desengonçadamente até a porta, com aquele fragmento repugnante de alimento ancorado na blusa, provavelmente à busca de mais um interlocutor mudo e paciente.
terça-feira, 20 de janeiro de 2009
APOCALIPSE (1993)
APOCALIPSE (1993)
Resta
pouco
fim do
mundo
está tão
perto.
Morte
certa
para
todos.
Quase
nada
ao certo
é limpo.
Para
cada
tempo,
cada
época,
há mais
para
ser feito.
O (um) instante
nunca
foi tão
diferente.
Estranho,
como anda
toda gente,
todo povo,
muita gente...
PARE.
Pense
no pouco,
em tudo
o que
resta.
Quero
mais...
Quero
paz.
__________________
TÉDIO (1993)
Tédio e silêncio discutem em minha mente:
“ – Oh tédio, inimigo meu,
por que tão mudo me fizeste?
Minha vida é tão monótona,
Não há no mundo quem conteste!
Expresso-me por idéias,
Pensamentos... falar não.
Não há coisa mais odiosa
Que levar a vida em vão!
Oh tédio, inimigo meu,
Nunca gostastes de mim, não?”
“ – Ah silêncio, não penses assim,
eu nunca fora inimigo teu;
quer você par mais amigo
que meu ócio e o vazio teu?
Digo, ninguém mais desolado
Existe, que eu mesmo,
Pois não és tu, o calado,
Que me fazes andar a esmo?
Não reclames, pois, seu tolo,
Ou me vou agora mesmo!”
E, após o diálogo,
Dançam debilmente um (en)fado.
Resta
pouco
fim do
mundo
está tão
perto.
Morte
certa
para
todos.
Quase
nada
ao certo
é limpo.
Para
cada
tempo,
cada
época,
há mais
para
ser feito.
O (um) instante
nunca
foi tão
diferente.
Estranho,
como anda
toda gente,
todo povo,
muita gente...
PARE.
Pense
no pouco,
em tudo
o que
resta.
Quero
mais...
Quero
paz.
__________________
TÉDIO (1993)
Tédio e silêncio discutem em minha mente:
“ – Oh tédio, inimigo meu,
por que tão mudo me fizeste?
Minha vida é tão monótona,
Não há no mundo quem conteste!
Expresso-me por idéias,
Pensamentos... falar não.
Não há coisa mais odiosa
Que levar a vida em vão!
Oh tédio, inimigo meu,
Nunca gostastes de mim, não?”
“ – Ah silêncio, não penses assim,
eu nunca fora inimigo teu;
quer você par mais amigo
que meu ócio e o vazio teu?
Digo, ninguém mais desolado
Existe, que eu mesmo,
Pois não és tu, o calado,
Que me fazes andar a esmo?
Não reclames, pois, seu tolo,
Ou me vou agora mesmo!”
E, após o diálogo,
Dançam debilmente um (en)fado.
quinta-feira, 15 de janeiro de 2009
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Green Envy Echinacea
Li cada palavra que havia escrito. As letras, uma a uma, foram se agrupando à minha frente e formando aquelas odiosas frases, vindas de uma mente que eu invejava. Ele a amava e eu sabia. Ela iria embora, mas e ele a desejava mesmo assim.
Imaginava seu sorriso, o dela, imensamente aberto e branco. O brilho de seus olhos ofuscando todo um quarto onde haviam acabado de se amar. Tanta luz que eu não suportaria permanecer no lugar sem óculos escuros. Um todo esplêndido e deslumbrante, ao som de um concerto barroco, música de felicidade nostálgica. Então, retornando do onírico à realidade, ele a convidaria para beber. A menina, exalando um hálito de tabaco e cerveja, diria palavras simples que o encantariam; o som de sua voz, sua fragilidade, a dependência... o pedido de ajuda! Toda aquela juventude vulgar que o tornava mais moço e potente; sentia-se forte... imprescindível!!! Suas conversas eram mágicas, disse-me uma vez. Eu nunca conseguiria reproduzir tal cena, com esse conteúdo, contorno, ritmo... De qualquer forma sempre seria ela, não eu.
Agora que se foi, somente eu restei. Que não sou mágica nem nunca serei; que não sei ser especial nem jamais saberei. Que não escrevo nem converso sobre coisas sublimes. Que sofri calada por tantos e mais anos na vida, porém, como não soube pedir ajuda, não o fiz se apaixonar.
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