De madeira escura é a porta, abre-se. Repleta de vazios, a sala adentro de claridade opaca, lá fora a luz de agora, em dia que não há vento. Fecho a janela que tanta luz me incomoda. O teto é alto, compridíssimo pé direito, de casa de vó em interior, naquelas em que teia de aranha sobrevive eternidade que não há vassoura que chegue. Tinta velha, mas há dignidade nessas paredes. Sobriedade.
O chão pastoso, ensebado me faz escorregar em neves de sujeira. No pouso ao solo penso o pássaro estar contente, terra boa em que se fincar não é fácil de se achar. Caio e planto, raiz e caule, pra nunca mais sair. Mas é preciso conhecer o resto, e parece tanto esse todo resto. Corredor e sala se fundem numa projeção geométrica mal rebordada, de limites imprecisos e assombreados. A copa ampla e colorida traz reminiscências de uma década de livres amores, animadíssimas canções e cabelos longos ao vento. Chão tecido em mosaicos matemáticos que remetem ao infinito. Caminho mais até a cozinha, bege, suja e feia, contudo arejada como um amplo salão de festas antigo. Corredor e copa são uma só coisa, os passos levam até o banheiro, tão distante fora eu, nem acredito estar aqui. Novamente a surpresa dá lugar à admiração, tudo é grande e encardido, nesse antro de azulejos. Viveu a esposa, depois a mãe, ainda a viúva, neste cemitério de histórias. Decrépita casa, retribui ao visitante uma triste e fétida paisagem de memórias do passado. Ali houve uma banheira, diz o zeloso zelador que demonstra o edifício. Vê-se então no chão quebrado, um piso outro que não o colorido, fruto de um malfadado e defeituoso reparo. 'Quero então que seja livre, da água, das gentes, dos vapores' – talvez tenha dito algum. E fez-se retirar a banheira que ora trincada, não poderia mais servir àquela velha claudicante. Quem sabe nem mais conseguia subir no objeto? As histórias nunca vêm completas, pelos meios e metades as sabemos, ai de quem as duvidar, que nunca as vão saber de qualquer modo ou maneira. A luz que entra é muito pouca e raro é o ar que circula pelo recinto. Moscas muitas voam rente às paredes, buscando o mel da antiguidade e dos restos de humanos que ali viveram. Gente deixa açúcar no concreto? Não sei não, mas penso isso naquela hora. Corredor e sanitários se confundem num ruído de abundante descarga com descomunais águas e seu barulho não permite que eu ouça o ranger do piso e batentes, sem exceção gastos e puídos, em que minúsculas pragas comedoras de celulose fizeram morada soberana. Na porta uma barata, na barata uma porta. Fez-se o inseto maldição, e Deus ouvidando-se ou desapercebendo-se, deixou que o Diabo criasse asas com queratínico esqueleto e capas marrons translúcidas-cintilantes de sujeira e lodo, e infestou os subterrâneos das cidades e das cabeças das mulheres medrosas de sua vilania. Preciso ter coragem, deve haver milhões delas. Milhões? Racionalmente tentei me corrigir. Mas a ilógica do pavor é hiperbólica e exuberante, e não há modos de alterar a percepção equivocada da tragédia do porvir. Ou aprende-se a matá-las ou é morta à noite, sufocada por legiões destas bestas-feras que , sabendo-se do seu terror, virão à espreita para apavorá-la e após o terem feito continuamente e com maestria por semanas que durarão séculos em sua mente, chegarão por fim a executá-la com a simples sinfonia do vibrar simultâneo de suas asas – sim! Milhões delas! - causando o estouro de seus tímpanos pela ressonância maldita por Deus e amaldiçoada por todos daquelas partículas aladas e repugnantes. Mas esta estava morta, ou assim parecia. De pernas ao alto, carapaça ao chão, demonstrava a mais humilde e modesta das posições que um monstro desses pode assumir, a da definitiva e única derrota, a hora de sua morte. Pensei na infinidade de armadilhas que deveria comprar, na empresa de dedetização a contratar, com seus funcionários , bravos indômitos, bombando e injetando líquidos venonos e ultratóxicos em todos os orifícios e ralos possíveis; imaginei-as dançando o funesto baile, embriagadas pelo ópio dos piretróides , cambaleando uma dança até o último e inexorável grand-plié, a derrocada final, a morte. Todas elas sucumbiriam, sem perdão dos céus ou compaixão dos terrenos, para seu destino horrososo e necessário. Melhor seria viver nos outros andares, o térreo é sempre mais perigoso e acometido. Que fosse. Agora chega o quarto, importante e último cômodo, do qual antevejo a porta do quintal. Gigante salão, tão maior que a outra gaiola em que vivi nos últimos anos! Quero-o todo, só pra mim, rolar no chão, fazer cambalhotas, saltar do tecido, instalar cama elástica. Chega, nada disso, somente uma cama e meus livros fariam de mim a pessoa mais feliz da Terra. É grande e fede, falei comigo. O zeloso prestador não elogiava nem depreciava, cumpria seu papel, mantendo aquele distanciamento imprescindível aos que mostram apartamentos. Devem ser tantos a cumprir essa trajetória por dia, tão enfadonho esse seu ofício, de dizer sempre as mesmas palavras, 'esta é a sala: esta infiltração tá pra ser consertada, o dono prometeu arrumar antes do novo morador entrar', 'aqui fica a cozinha' ou ainda, 'mas só tem um quarto – você vai morar sozinha?'... e tantos mais. Corri para abrir as janelas mas emperradas que estavam me impediram de satisfazer o sonho pueril de ver o sol entrar. Tudo bem, que a claridade me incomoda. Tanto tempo que não via janelas e portas tão grandes. Desde a casa da avó na infância, mas já fora uma eternidade... Agora sim, derradeira e definitiva é a área de serviço, lavanderia, que não lava nada há muito tempo. A ausência total de objetos faz o pensamento viajar sobre como os gatos andariam neste espaço, rodeados por vasos de plantas e varais de roupas, pulos e alegrias, tombos e satisfações. Num átimo revejo a casa toda desde o início, cheiros e luzes, sombras e detalhes. Quero-a, é minha! Saio exultante, como se a infância me tomasse de súbito e pudesse guiar uma escolha tão importante: assim de faz de conta, de tanto faz, quero desse jeito, não me importo em arrumar. Aqui seremos felizes.
Julia Peres
Abril-2011
segunda-feira, 1 de agosto de 2011
Minduim
Deitado ao chão, debaixo do banco do ponto de ônibus: foi assim que o vi pela primeira vez. Em seus olhos não havia tristeza ou medo, mas sim um brilho que continha toda a benevolência do mundo.
Entrei no banco para resolver algumas questões financeiras. Quando saí, o mesmo cão – permanecia imóvel no local – observava pacientemente os céleres humanos recém-saídos do metrô. Segui meu percurso: seis quadras me separavam do apartamentinho sem varanda em que eu vivia. Fazia todos os dias esse impreterível caminho, de retorno do hospital, numa infinita e enfadonha rotina. Às vezes parava numa doceria para comprar profiteroles, fugaz e predileta alegria. Nessas ocasiões até apressava o passo até minha casa, com gana de provar o doce que já derretia antecipadamente, senão em minha boca, na imaginação. Ao chegar, sentava no sofá acompanhada de uma xícara de capuccino bem quente e deliciava-me com aquela maravilha.
Ainda envolta nestes e outros desimportantes pensamentos, escutei um trotar discreto ao meu lado: fui ultrapassada pelo cão que encontrara a uma quadra. Sorrateiramente, sem me olhar, persistiu na ação inexorável dos cães de rua que é tão somente caminhar, caminhar e caminhar. Mirei-o por um tempo, bonito esse cachorro, devo ter pensado. Em certo momento ele parou e olhou para mim. Sorriu. Ou pelo menos achei que tivesse. Sempre pensei que os cachorros sorrissem, como para nos mostrar que nem tudo está perdido, que o sonho não acabou e que, ao exemplo deles, a humanidade poderia ser melhor, bastava simplificarmos a vida. Detive-me tão logo ele parou, e sorri também. Recomecei a andar em sua direção, o cão voltou a cabeça pra frente e continuou. Agora minha mente se ocupava em destrinchar a obviedade do destino daquele bicho: ele nunca saberia do que se tratam as nossas verdadeiras (?) importâncias, o vazio das existências, as imensas responsabilidades, ou o porquê do homem julgar ser inferior que a máquina melhor que o animal. O cachorro prosseguia, caminhando e sorrindo, alheio a todas essas atribulações. Será que tem dono? Se ficasse solto desse modo, acabaria sendo atropelado, igual a outros tantos por aí. Dobrei a esquina, havia percorrido mais da metade do caminho, restavam apenas duas quadras. Um homem ao meu lado, bonito cachorro, moça. E piscou. Então que me dei conta: não o acariciei nem ofereci comida, que história era essa de me escoltar? Sustive a marcha; aos poucos ele desacelerou e olhou para mim. Estava me esperando? Estagnada, por um minuto talvez, tive a certeza de que me aguardava para restaurar o curso. Atravessei a rua. Ele atravessou . Desatravessei. Ele retornou (naõ sem antes checar se havia carros passando). O cão estava realmente me seguindo! Após uma breve (quase intantânea) reticência, já principiei a fantasiar como seria bom ter um bichinho de estimação, até que meu apartamento não era tão pequeno assim, se bem que o cachorro fosse grande, mas poderia levá-lo todos os dias pra passear, havia os plantões, mas quando voltasse tarde do hospital ainda assim caminharíamos à noite, sabia o bairro calmo, passear com o cachorro seria bom exercício, talvez fosse hora de deixar o sedentarismo. Passei ao lado da confeitaria, uma vontade súbita do doce, porém julguei melhor não entrar. Se o cão não me aguardasse e fosse embora? Consternava-me a ideia de que pudesse partir para longe, afeiçoava-me de sua companhia. Melhor seria não arriscar; a carolina que ficasse para outro dia. Mais adiante, uma senhora acompanhada de um poodle preto me abordou, lindo o cachorro, qual a raça. É vira-lata, mas acho que mestiço de golden retriever. Parabéns. É que... de verdade não é meu não, veio me seguindo desde o metrô. Pois então... é seu! Não sabia que os cachorros escolhem seus donos? Como eu não respondesse nada, perguntou ela ainda, você tem ração em casa. Não. Então entra aqui que te dou um pouco. Entrei na casa dessa senhora (aparentava uns cinquenta anos mas exibia um olhar centenário) que me aconselhou veementemente com milhares de considerações, sobre visitar o veterinário, vermifugar e vacinar, amá-lo incondicionalmente, e outras tantas, ao passo que empanturrava uma sacola plástica com ração bastante para um mês. A baba escorrendo no chão denotava a ânsia com que meu amigo aguardava pela crocante iguaria. Há quantos dias ele não comia, chafurdando os sacos de lixos pela ruas, bebendo água das sarjetas? Despedi-me da generosa alma, não sem antes agradecê-la repetidas vezes; faltava apenas uma quadra para o meu, digo, nosso lar. Acelerei, tinha pressa de chegar, mas ainda tive tempo de projetar nesses últimos passos quais seriam minhas prioridades no fim de semana e quem sabe, na minha vida daí em diante. Queria dar-lhe um banho morno de chuveiro e sair para passear, à moda de todos os donos, com o companheiro preso a um cordão de couro. Solto como hoje está não poderia mais ficar - vai que disparasse com algum gato ou passarinho e fosse atropelado. Pronto, mal conhecera-o e já tinha medo de perdê-lo. O porteiro me reconheceu e destravou o portão eletrônico; deve ter pensado o que seria aquele cachorro sujo e sorridente ao meu lado. Abri e convidei-o: entra! Ficou me olhando embevecidamente, com a boca aberta e a língua descaída, como que a agradecer o obséquio. Seu rabo efusivo abanava tanto, parecia estar desejoso de mergulhar em sua nova família. Entra, vai. E como não respondesse ao meu comando, coloquei as mãos em seu quadril e empurrei-o com força pra dentro do prédio. Depois eu te ensino a obedecer. No elevador, ele trêmulo e assustado, eu a imaginar qual o melhor nome para lhe dar. E foi assim que Minduim, o cão mais encantador do mundo, apareceu em minha vida.
São Paulo, agosto de 2010.
Entrei no banco para resolver algumas questões financeiras. Quando saí, o mesmo cão – permanecia imóvel no local – observava pacientemente os céleres humanos recém-saídos do metrô. Segui meu percurso: seis quadras me separavam do apartamentinho sem varanda em que eu vivia. Fazia todos os dias esse impreterível caminho, de retorno do hospital, numa infinita e enfadonha rotina. Às vezes parava numa doceria para comprar profiteroles, fugaz e predileta alegria. Nessas ocasiões até apressava o passo até minha casa, com gana de provar o doce que já derretia antecipadamente, senão em minha boca, na imaginação. Ao chegar, sentava no sofá acompanhada de uma xícara de capuccino bem quente e deliciava-me com aquela maravilha.
Ainda envolta nestes e outros desimportantes pensamentos, escutei um trotar discreto ao meu lado: fui ultrapassada pelo cão que encontrara a uma quadra. Sorrateiramente, sem me olhar, persistiu na ação inexorável dos cães de rua que é tão somente caminhar, caminhar e caminhar. Mirei-o por um tempo, bonito esse cachorro, devo ter pensado. Em certo momento ele parou e olhou para mim. Sorriu. Ou pelo menos achei que tivesse. Sempre pensei que os cachorros sorrissem, como para nos mostrar que nem tudo está perdido, que o sonho não acabou e que, ao exemplo deles, a humanidade poderia ser melhor, bastava simplificarmos a vida. Detive-me tão logo ele parou, e sorri também. Recomecei a andar em sua direção, o cão voltou a cabeça pra frente e continuou. Agora minha mente se ocupava em destrinchar a obviedade do destino daquele bicho: ele nunca saberia do que se tratam as nossas verdadeiras (?) importâncias, o vazio das existências, as imensas responsabilidades, ou o porquê do homem julgar ser inferior que a máquina melhor que o animal. O cachorro prosseguia, caminhando e sorrindo, alheio a todas essas atribulações. Será que tem dono? Se ficasse solto desse modo, acabaria sendo atropelado, igual a outros tantos por aí. Dobrei a esquina, havia percorrido mais da metade do caminho, restavam apenas duas quadras. Um homem ao meu lado, bonito cachorro, moça. E piscou. Então que me dei conta: não o acariciei nem ofereci comida, que história era essa de me escoltar? Sustive a marcha; aos poucos ele desacelerou e olhou para mim. Estava me esperando? Estagnada, por um minuto talvez, tive a certeza de que me aguardava para restaurar o curso. Atravessei a rua. Ele atravessou . Desatravessei. Ele retornou (naõ sem antes checar se havia carros passando). O cão estava realmente me seguindo! Após uma breve (quase intantânea) reticência, já principiei a fantasiar como seria bom ter um bichinho de estimação, até que meu apartamento não era tão pequeno assim, se bem que o cachorro fosse grande, mas poderia levá-lo todos os dias pra passear, havia os plantões, mas quando voltasse tarde do hospital ainda assim caminharíamos à noite, sabia o bairro calmo, passear com o cachorro seria bom exercício, talvez fosse hora de deixar o sedentarismo. Passei ao lado da confeitaria, uma vontade súbita do doce, porém julguei melhor não entrar. Se o cão não me aguardasse e fosse embora? Consternava-me a ideia de que pudesse partir para longe, afeiçoava-me de sua companhia. Melhor seria não arriscar; a carolina que ficasse para outro dia. Mais adiante, uma senhora acompanhada de um poodle preto me abordou, lindo o cachorro, qual a raça. É vira-lata, mas acho que mestiço de golden retriever. Parabéns. É que... de verdade não é meu não, veio me seguindo desde o metrô. Pois então... é seu! Não sabia que os cachorros escolhem seus donos? Como eu não respondesse nada, perguntou ela ainda, você tem ração em casa. Não. Então entra aqui que te dou um pouco. Entrei na casa dessa senhora (aparentava uns cinquenta anos mas exibia um olhar centenário) que me aconselhou veementemente com milhares de considerações, sobre visitar o veterinário, vermifugar e vacinar, amá-lo incondicionalmente, e outras tantas, ao passo que empanturrava uma sacola plástica com ração bastante para um mês. A baba escorrendo no chão denotava a ânsia com que meu amigo aguardava pela crocante iguaria. Há quantos dias ele não comia, chafurdando os sacos de lixos pela ruas, bebendo água das sarjetas? Despedi-me da generosa alma, não sem antes agradecê-la repetidas vezes; faltava apenas uma quadra para o meu, digo, nosso lar. Acelerei, tinha pressa de chegar, mas ainda tive tempo de projetar nesses últimos passos quais seriam minhas prioridades no fim de semana e quem sabe, na minha vida daí em diante. Queria dar-lhe um banho morno de chuveiro e sair para passear, à moda de todos os donos, com o companheiro preso a um cordão de couro. Solto como hoje está não poderia mais ficar - vai que disparasse com algum gato ou passarinho e fosse atropelado. Pronto, mal conhecera-o e já tinha medo de perdê-lo. O porteiro me reconheceu e destravou o portão eletrônico; deve ter pensado o que seria aquele cachorro sujo e sorridente ao meu lado. Abri e convidei-o: entra! Ficou me olhando embevecidamente, com a boca aberta e a língua descaída, como que a agradecer o obséquio. Seu rabo efusivo abanava tanto, parecia estar desejoso de mergulhar em sua nova família. Entra, vai. E como não respondesse ao meu comando, coloquei as mãos em seu quadril e empurrei-o com força pra dentro do prédio. Depois eu te ensino a obedecer. No elevador, ele trêmulo e assustado, eu a imaginar qual o melhor nome para lhe dar. E foi assim que Minduim, o cão mais encantador do mundo, apareceu em minha vida.
São Paulo, agosto de 2010.
Assinar:
Comentários (Atom)
