
Outro dia um amigo me disse que eu era tão solitária quanto ele. Como se fosse privilégio nosso... Todos no mundo somos solitários. Cada um dos seres humanos. Minha solidão não é maior que a sua, que a do vizinho, ou a da senhora que está atravessando a rua em frente ao meu prédio neste instante. A minha não é pior que a do preso em sua cela ou do paciente terminal em seu leito de morte.
Necessito estar só, gosto disso. Preciso do meu eu intacto, não molestado pela exuberante presença de todos, abraços bastantes, gargalhadas de muitos, tudo vindo de todos os cantos. Quero ficar sozinha às vezes (quase sempre) pra me encontrar, ou melhor, não me perder. No meio de muitos, sinto-me despedaçar, meus cacos vão fugindo de mim, vejo um pedaço rolar pela sarjeta, outro corre e dobra a esquina, aquele lá já desceu pelo ralo... então, cadê eu???
Sozinha não sou (tão)triste. Por mais que as pessoas necessitem de amizade, há coisas que devem ser vividas e sofridas em particular. Não há no mundo colo amigo ou mão estendida que aplaque TODA a dor intrínseca de cada ser. A compaixão de outrem serve para nos provar quem realmente nos ama e quer bem; mas a dor, essa rebelde, não pode ser compartilhada com quem quer nos ajudar. Esta é indivisível e só pode ser curtida por nós mesmos, detentores do próprio sofrimento. Nosso irmão chora por compaixão, mas não é a mesma dor da gente que deveras sente. A alma de cada um é una no seu sofrer. O ombro amigo não remedia efetivamente, é placebo, ainda que necessário.
"A solidão é condição básica para a vida humana." - disse Paulo Autran certa vez em uma entrevista. Nascemos e morremos só. Ser é estar sozinho. Só então se existe.
Livro: "A Morte de Ivan Ilitch" (Leon Tolstoi), trata da solidão da morte.

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